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sábado, 28 de maio de 2016

'Para escapar da barbárie e do colapso da política, vai ser necessário ir além'

Por Renato Rovai, em seu blog - "O momento atual é de colapso do sistema político brasileiro. O movimento de  junho de 2013 já havia deixado claro que estávamos num processo muito perigoso, porque de um lado havia uma juventude insatisfeita com as políticas públicas de Estado e do outro se consolidava um movimento de direita com viés fascista, que ao mesmo tempo que pedia menos Estado propagandeava o justiçamento para tudo aquilo que considerava crime.


Nas mesmas ruas de junho esses movimentos, que são duas pontas do espectro político, caminharam muitas vezes juntos defendendo bandeiras absolutamente distintas, mas que tinham algo em comum, o questionamento do atual sistema político e uma crítica forte aos seus representantes.

Por isso a palavra de ordem pelo fim da corrupção foi a que mais aglutinou a todos que em junho marcharam. Mas curiosamente, se bem investigado, uns pediam menos corrupção para ter saúde e educação padrão Copa. E outros para que a carga tributária fosse menor.

Desde junho de 2013, o condomínio político brasileiro teve tempo para debater o significado daqueles recados das ruas e de tentar sair de uma encalacrada anunciada, que era ver ruir tudo de uma vez e de repente ver no chão não apenas partidos e lideranças, mas o alicerce democrático.

É verdade que não se pode imaginar que as soluções para essa crise seriam as mesmas para todos e muito menos que a todos interessava pensar uma solução que protegesse a nossa democracia imperfeita.

Mas ao menos a presidenta Dilma e o PT deveriam ter buscado ouvir mais aqueles recados, não apenas pensando na eleição de 2014, mas olhando para o processo como um todo.

E o fato é que não se fez isso. A presidenta até propôs uma constituinte exclusiva para propor a reforma política que foi bombardeada pela mídia, pelo vice Michel Temer e também pelo seu então ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso. A ideia não fez aniversário de 24 horas.

E foi-se para a eleição de 2014 deixando embaixo do tapete toda aquela insatisfação que pasmou boa parte dos analistas políticos. Ali, a disputa fratricida deu mais combustível a um tipo de comportamento autocrático dos militantes. E o vencer ou vencer passou a ser um mantra. Começava a ficar claro que quem perdesse não iria aceitar a derrota com armas abaixadas.

E aí cresceu a Operação Lava Jato, entrou na cena principal Eduardo Cunha e suas chantagens, aprofundou-se a crise econômica e o país embicou ladeira abaixo, perdendo empregos, tendo que limitar direitos e não conseguindo dialogar com a expectativa de futuro tanto das classes baixas como dos setores médios.

O impeachment de Dilma que é um golpe, também é ao mesmo tempo fruto desta tempestade perfeita que foi produzida tanto por falta de ação quanto por incapacidade política de buscar entender o que acontecia.

A ampliação do discurso e das práticas da barbárie foi se dando neste terreno fértil. Sei que alguns vão achar absurdo este tipo de análise, mas tanto o estupro celebrado e postado em redes sociais por 30 garotos quanto o do ódio e do justiçamento para eles, são as duas faces de uma mesma moeda.
E tem relação com os rumos que tomaram as disputas políticas no Brasil.

Vale lembrar que o germe dessa crise não está apenas em como se lidou com 2013, mas também com a forma como se deu a disputa presidencial de 2010, quando um José Serra apavorado com a derrota no segundo turno, decidiu radicalizar, beijar os compromissos de Malafaia e trazer o tema do aborto para o centro do debate.

Naquele momento, deixou-se de debater questões centrais para os rumos do país e só se passou a falar de aborto e terrorismo. E ali, o PT e Dilma ao invés de enfrentar o debate chamando a cidadania ativa brasileira a não aceitar a chantagem, preferiu recuar na defesa de temas importantes e que poderiam dar força a um avanço civilizatório no país preferiu se render ao beijo a bispo e pastores.

Mesmo com a derrota de Serra, aquele recuo foi fundamental para ampliar a força desses segmentos que hoje clamam por pena de morte e castração de estupradores. E que ao mesmo tempo justificam o estupro dividindo a responsabilidade do ato com as vítimas, que usam, por exemplo, roupas curtas.

Ali produziu-se o ovo da serpente que fez com que parte de junho de 2013 fosse de direita e extrema direita. Porque, ao contrário do que alguns imaginam, quando o movimento começou as páginas desses grupos no Facebook já eram imensas e maiores do que as dos setores progressistas. Quem quiser ter mais mais informações sobre isso dever ler a dissertação de mestrado da Adriana Delorenzo.

O estupro da menina de 16 anos da Zona Oeste do Rio de Janeiro, infelizmente, não é um caso isolado. Muitas outras meninas são vitimas dessas festas macabras e em muitos casos, depois são assassinadas.

Esses eventos apontam para uma deterioração total dos valores. E, evidentemente, por mais que se queira fazer de conta que não, a qualidade da mídia brasileira tem muito a ver com isso. Mas o aspecto central é que o colapso da política enquanto um arranjo para construir maiorias e buscar saídas institucionais é o que está abrindo espaço para Bolsonaros e suas teses que nos levarão à barbarie.

E por isso não há solução possível com Temer, que já nasceu com a tatuagem de golpista e com prazo de validade vencido. Por exemplo, sua solução de menos Estado não nos ajudará a ultrapassar este momento, muito pelo contrário.

Temer é um puxadinho de péssima qualidade. Além de ser fruto de um Congresso medonho e que é uma das partes relevantes da crise atual. Com esse Congresso não se vai até a esquina, até porque quase todo ele é fruto do jogo político mais mesquinho e corrupto.

Num momento tão duro e onde mesmo a volta de Dilma Rousseff não traz alento para além da proteção das regras democráticas, o que, diga-se, não é pouco, talvez seja o caso de se buscar nos temas transversais um pacto anti-barbárie. E ao mesmo tempo dialogar sobre como sair desse arcabouço político institucional e caminhar para um outro, onde amplie-se a participação cidadã e crie-se instrumentos de diálogos para além da representação parlamentar e o Executivo.

É fato que com Temer na presidência isso não se realizará. Mas começar a pensar nisso urgentemente é fundamental. Ainda vamos viver momentos muito complicados, mas se alguns setores conseguirem olhar e oferecer saídas para o depois de amanhã, há uma pequena chance de se sair melhor deste processo do que se pode imaginar hoje.

E isso não será feito sem a participação de alguns fiadores do pacto político vigente. Por mais absurdo que possa parecer, neste momento entre os construtores dessa ponte para o futuro, que não tem a ver com um programa político ou com acordos de como gestar o Estado, mas com uma construção de um novo arranjo democrático, terão de estar Lula e FHC. Não só eles. E de maneira alguma só eles. Mas também eles."

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Falta de fraternidade reedita barbárie no Brasil

Por Zilda de Assis (*) - O surto de microcefalia, registrado no Brasil desde o segundo semestre de 2015, escancarou a barbaridade de um povo que sempre se acreditou generoso. Fraternidade, liberdade e igualdade compõem o lema da Revolução Francesa que marcou a entrada da humanidade na Idade Contemporânea. Entretanto, a prática trouxe-nos uma verdade inconveniente: aquela que diz que os homens não têm competência para sair da era da barbárie.


Em meio a uma situação desesperadora capitaneada pelo egoísmo, pela inveja, pela frustração, a microcefalia expõe a fragilidade do amor ao próximo que deveríamos ter. Se observarmos a fundo, perceberemos que ainda somos analfabetos em tudo o que diz respeito à implantação prática da fraternidade humana.

O egoísmo e a falta de capacidade de lidar com as diferenças e, principalmente, com a deficiência levam as famílias a optarem por adiar o sonho de ter filhos. Como se não bastasse, muitas pensam seriamente na possibilidade de realizar o aborto, nos casos em que o feto seja diagnosticado com a doença.

Para uma nação, cujos filhos se orgulham de serem religiosos, este fato é uma prova cabal da indigência espiritual desta gente. Como se não bastasse a má fé de pseudo líderes religiosos, a prática do amor preconizada pelo Salvador, que afirmam seguir, não resiste à vaidade e à necessidade que se tem de pelo menos parecer perfeito. Esses que se dizem líderes, por exemplo, se enriquecem à custa da extorsão do dízimo, via exploração da fé cega. Aqueles que os seguem sucumbem diante de preconceitos e apego a conceitos literais da palavra de Deus. Nunca se preocuparam de fato com a fraternidade pregada e praticada por Jesus. Este último, por sinal, foi expulso do planeta, só pelo fato de que nos mostrava, na prática, que podemos sim ser generosos e dignos. Agora, muitos já pensam em assassinar seres que não têm a menor condição de se defenderem.

Falta fraternidade, respeito à vida e sensibilidade. Sei bem o que é uma mãe ter medo de dar á luz uma criança com deformidades físicas ou mentais. Quando estava grávida, nas ultrassonografias que foram realizadas, não foi possível ver os pés do meu filho. Via-se tudo: mãos, costelas, braços, órgãos internos, até as pernas. Só os pés não apareciam. Por este motivo, passei metade da gestação consciente de que lutaria por ele, mesmo que nascesse sem os pés.

Era uma sensação extremamente desconfortável. Porém, aquele filho, que não havia sido planejado, foi e é amado desde a primeira suspeita da gravidez. Caso nascesse deficiente, eu moveria o mundo, como fiz em todos os momentos em que ele foi agredido emocionalmente pela sociedade. E você pode ter certeza de uma coisa, além da morte: seu filho será agredido pela sociedade, mesmo que seja uma cópia scaneada do Brad Pit. O motivo? O ser humano ainda não aprendeu a conviver com o que não lhe convém.

Fraternidade-Revolução Francesa

Onde se discute o aborto, falta fraternidade

Voltando à Revolução Francesa que trouxe novamente à tona a necessidade de se ter fraternidade, o momento que vivenciamos atualmente é indigesto e profundamente opositivo aos seus ideais sensíveis e libertários. Naquela ocasião, o povo francês se reunia em torno dos ideais de justiça social e mostrava para o clero e nobreza onde era a sede do poder. Hoje, vive-se uma profunda guerra de classes onde nem pobreza, nem riqueza conseguem se articular para defender seus interesses. Pior ainda, é assistir no meio disso tudo, uma tentativa de retomar a discussão de legalização do aborto em função do surto da microcefalia.

Entendo que a proibição legal não seja capaz de promover o amor e a responsabilidade na mentalidade das pessoas. Apesar de ser crime abortar, milhares de mulheres optam por esta prática anualmente, inclusive matando um percentual significativo delas. Mas em tempos onde a prevenção é largamente difundida e acessível, quem não quer a experiência da maternidade, tem o dever incontestável de se precaver contra ela.

Aceitar a possibilidade de discutir uma permissão para aborto de fetos com microcefalia é atestar a incapacidade de lidar com dificuldades e problemas. Além disso, todos nós nos horrorizamos com os gregos que matavam os bebês que nasciam com qualquer deficiência, em função do culto à perfeição física. Se eles eram considerados injustos, por admitirem apenas pessoas belas e saudáveis, porque nós nos damos o direito de considerar legal o aborto nestas condições?

Milhares de deficientes físicos já provaram que são capazes de ir aonde muitas pessoas ditas normais jamais conseguiram estar. Dão show de habilidade, força, resistência e elegância nos Jogos Paraolímpicos, por exemplo. Mostram que a raça humana pode muito mais do que ousa imaginar e que não podemos prever o futuro, por mais que nos instrumentalizemos para isso.

Sem fraternidade, para continuar na zona de conforto

A falta de fraternidade em torno da microcefalia está alicerçada na necessidade que os indivíduos têm de viverem em suas zonas de conforto. Uma mãe de um bebê nesta situação sabe que vai precisar tirar força de onde nem sabe, para conseguir oferecer qualidade de vida a ele. E é esta necessidade que leva muita gente boa a ser preconceituosa e totalmente egoísta. Ser bom é bom, mas dá muito trabalho, embora a recompensa deva ser excepcional.

O futuro não existe e se traduz em uma grande incógnita. Ninguém garante de uma criança com todas as funções físicas e cognitivas perfeitas será um adulto responsável e socialmente equilibrado. A prática tem nos mostrado que uma infinidade de pessoas nestas condições sucumbem às drogas, ao crime, à corrupção prejudicando em muito a si mesmas e a todos ao redor. Da mesma forma, muitos deficientes se tornam personalidades respeitabilíssimas, exatamente por superarem suas limitações.

A jornalista Ana Carolina Cáceres é um bom exemplo para esta turma que defende o aborto para fetos atingidos por essa síndrome. Sua família deu exemplo de fraternidade ao recebê-la tal como foi formada na gestação. Hoje, com 24 anos, Ana Carolina é graduada em jornalismo, tem seu próprio blog e destaca que ela e mais milhares de portadores da microcefalia têm uma vida como a de tantos outros que não são atingidos por ela.

Para esta epidemia, o que deve ser combatido além do mosquito, que tem sido apontado como transmissor do vírus que causaria a síndrome, é o preconceito. E ele precisa ser eliminado através da fraternidade. Essa capacidade de amar o outro como se ele fosse da sua família é capaz de remover montanhas e produzir bem estar, qualidade de vida, felicidade mesmo. Eu, você e tantos outros, que acompanhamos a evolução da espécie, precisamos ter em mente que as dificuldades que aparecem na vida de cada um tem tão só a função de nos ensinar a sermos melhores, não a retroceder como se ainda fossemos bárbaros.

(*) Zilda de Assis é jornalista, escritora e autora do blog Por que gente é assim?

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