sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Baderna é contra a democracia


- As lideranças que condenaram Lula depois que ele disse que o tratamento agressivo dispensado a Dilma Rousseff e ao PT por seus adversários poderia ser comparado aos crimes do nazismo merece uma reflexão. Não ouvimos reações tão enfáticas quando o ministro Gilmar Mendes aproveitou uma votação no Tribunal Superior Eleitoral para comparar o trabalho do marqueteiro João Santana ao desempenho de Joseph Goebbels, o ministro na propaganda de Adolf Hitler. O candidato Aécio Neves fez a mesma comparação e nada se ouviu. Idem para Fernando Meirelles, o cineasta engajado na campanha de Marina Silva.

Numa postura de apelo à violência, diante da votação de Dilma no primeiro turno junto a eleitores do Nordeste, integrantes de um movimento chamado Dignidade Médica sugeriram: “Médicos do Nordeste: causem um holocausto aí. Precisamos mudar essa realidade!” Nada se disse.

Durante seus dois mandatos como presidente da República Lula construiu uma agenda positiva de aproximação entre Brasil e Israel. Ele foi o primeiro presidente brasileiro a fazer uma visita oficial àquele país. Somente nos primeiros cinco anos do governo Lula, o intercambio comercial entre os dois países mais que triplicou, chegando a US$ 1,6 bilhão, fazendo do Brasil o principal parceiro comercial de Israel na América Latina. Ao assinar um tratado de livre comércio com o Mercosul, Israel tornou-se o primeiro país fora do continente a participar desde acordo de países sul-americanos.


A denuncia do Holocausto e sua tragédia é parte da consciência de nosso tempo. Está nos filmes que assistimos, nos romances que recomendamos a nossos filhos, nos relatos históricos que impedem que se esqueça o que aconteceu. E é bom que seja assim.

A lembrança de fatos históricos ajuda a despertar a memória, este instrumento vigoroso contra todas formas de horror e toda atitude de indiferença que sempre serviu para acobertar os grandes crimes contra a humanidade. O Holocausto é um desses fatos que marcam, ferem e ensinam.

O ciclo de ditaduras da América Latina, que teve outro caráter e outro grau de violência, também deixou lições e advertências num país que participou do esforço de guerra contra o nazismo e em 1947 apoiou a formação do Estado de Israel.

No Brasil de 2014 uma parcela dos adversários de Dilma Rousseff tem se afastado das opções democráticas de luta política para pregar métodos fascistas como resposta ao progresso da candidata do PT nas pesquisas eleitorais.

Diante do risco uma eventual derrota eleitoral, possibilidade que sempre faz parte das regras aceitas de todo jogo democrático, querem atemorizar e intimidar eleitores que podem dar a vitória a adversária.
Prega-se a intolerância, a violência, a baderna e a provocação. Militantes — inclusive em cadeira de rodas — tem sido agredidos, ameaçados. O preconceito é estimulado, manipulado. Judeu e petista, o governador da Bahia, Jacques Wagner, ouviu palavras grosseiras, inaceitáveis, quando jantava dias atrás num restaurante nos Jardins, em São Paulo. O governador foi forçado a agir com educação e ao mesmo tempo com firmeza para evitar uma cena de constrangimento maior.

Emprega-se o discurso da moralidade — seletivo a ponto de sua hipocrisia ter-se tornado evidência da reta final — para esconder o que não passa de um projeto de poder. Em campanha para impedir o retorno de Getúlio Vargas ao Catete, em 1950, a UDN fez da moralidade o tema principal de sua campanha, chegando a dizer em panfletos: “Todas as crises brasileiras serão sanadas se for sanada a maior de todas, que é a crise moral.” Batida sem apelação nas urnas, por um eleitorado que prezava a herança social e a opção pelo desenvolvimento de Vargas, a oposição conspirou 24 horas por dia para — fez uma guerra cruel contra Samuel Wainer, o jornalista judeu que fundou a Ultima Hora — para impedir que Getúlio tivesse condições políticas de governar. Em 1954, como se sabe, a crise terminou com um tiro no peito. Dez anos depois, sem a menor possibilidade de chegar a presidência em eleições livres e diretas, a oposição a Jango uniu-se para o golpe de 64, que evitou uma probabilíssima vitória de Juscelino Kubitscheck no ano seguinte e deu posse a uma sucessão de cinco generais-presidentes.

A consciência da história cumpre uma função que pode ser banal mas não deixa de ser necessária: ajuda a compreender os erros e tragédias do passado para evitar que se repitam no presente. A possibilidade cada vez mais real de uma vitória de Dilma Rousseff coloca em evidencia o plano B da oposição mais conservadora, que consiste em promover o caos e inviabilizar um governo saído das urnas, com toda legitimidade que se pode obter sob o pior regime do mundo — com exceção de todos os outros.
Como explica o governador Wellington Dias (PT-PI), o discurso do ódio tenta impedir o eleitor de refletir sobre seu voto.
Não é difícil acrescentar: em caso de resultado negativo nas urnas, o ódio ajudará a impedir o adversário de governar.

Por isso, nos últimos dias, a oposição já desistiu de pedir votos em Aécio. Como disse uma eleitora tucana ouvida na TV Folha: quer um golpe militar mas agora vai votar no Aécio.
O que se quer é aumentar a “indignação” o combustível para o pós-urna.
Você entendeu, né? Tiveram quatro anos — por baixo — para formar um candidato competitivo. Contaram com a boa vontade absoluta dos meios de comunicação, inclusive estrangeiros. Sabotaram a Copa, manipularam a Bolsa. E nada. Podem perder para Dilma, aquela para quem seus amigos gritaram VTNC.
Por isso se fala em “indignação.”
Que remédio?

Para quem gosta de entender de verdade as técnicas políticas produzidas pelo nazismo, Hanna Arendt recorda os ensinamentos oferecidos aos comandados de Heinrich Himmler, o chefe da tropa de assassinos de Hitler chamada SS, responsável pelos crimes mais cruéis do Reich, desde administração de campos de extermínio até fuzilamentos em massa de civis em países ocupados. Arendt recorda que esses criminosos fardados não eram pessoas comuns, ocupadas com questões da vida cotidiana, mas envolvidos somente “em grandes questões ideológicas, de importância para as próximas décadas ou séculos.”
Com uniformes negros, portando uma caveira como símbolo de identificação, faziam do ódio, a morte e a destruição seus alvos de atuação. Estavam convencidos que “trabalham numa grande tarefa que só aparece uma vez a cada 2 000 anos.”

Deu para perceber a importância de se abandonar o mundo da vida real e as regras de convívio construídas por uma população ao longo de sua história, o debate sobre o salário, o emprego, o futuro dos filhos, distribuição de renda e os valores básicos de decência e democracia para se praticar crimes inaceitáveis em situações de normalidade? Deu para entender a importância de trocar o mundo concreto pelo abstrato, três dias antes da votação, abandonando um candidato de carne e osso pelo estado de “indignação?”

Arendt lembra qual o tipo de barbaridade que se pode justificar com uma “grande tarefa que só aparece uma vez em cada 2 000 anos?” Quantas pessoas você pode chutar, esmurrar, xingar quando acredita contemplar um horizonte como este?

Como se dizia nas marchas do pré-64: “Deus”. “Pátria.” “Família.”
“Liberdade.” Não havia uma Constituição, um calendário eleitoral, nem um conjunto de direitos e princípios a serem respeitados. Havia abstrações, ideias que cada um compreende como quer, aceitar como quiser — só não pode tentar submeter e subjugar quem está em desacordo.
Vamos combinar. Indignados e revoltados devem estar os brasileiros nordestinos. Eles são ofendidos diariamente num país onde a Constituição diz que preconceito é crime mas nem aquela estudante que colocou no twitter em 2010 “faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!” passou uma noite atrás das grades. Nem uma noite.

Também deveriam estar indignados os brasileiros que venceram a fome e miséria, pela qual a nação inteira é historicamente responsável, omitindo-se até outro dia, e hoje são tratados como aproveitadores, preguiçosos.

Como se sente o cidadão que procura informações confiáveis num país onde o Manchetômetro demonstra matematicamente que todo mundo é enganado todos os sete dias da semana? Sente-se num país livre?
Estes são motivos reais de indignação. Eles não se resolvem pela violência nem pelo discurso moral. Seu terreno de ação é a política, o respeito à democracia e o voto.

Imagem: reprodução
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