terça-feira, 24 de março de 2015

‘Lobos e Cordeiros’

Por Apollo Natali*

Excelências, digo pensadores da Justiça, magnânimos fazedores de leis as mais justas possíveis – digo senhores togados, que estudam e sabem, que criam e aplicam a lei – suponho nem tenham ideia do que seja a  falta de proveito para os direitos do consumidor esse monumental aparato em todo o país dos chamados juizados especiais de pequenas causas, os Jecs.

Distraída, me parece, com todo o respeito, quanto à falácia das intituladas conciliações,  permite a Justiça que duzentos milhões de reles consumidores  sejamos levados para o matadouro das ditas conciliações dos juizados. Nelas, empresas públicas e privadas impõem-nos rotineiramente, com suas propostas, abrirmos mão de nossos direitos por elas violentados e perdão para os crimes que cometeram. 

Ora, o consumidor, comprador de bens e serviços, é a vítima de crimes econômicos em busca de Justiça nos Jecs. As empresas castradoras de seus direitos, elas são os criminosos, lobos devoradores, nas conciliações, de quaisquer possibilidades de defesa de um idoso, um aposentado, um assalariado, um cidadão inculto que ainda não percebeu o que se passa no mundo mau à sua volta, sobressaltados todos esses em meio ao clima assustador de um tribunal, pobres cordeiros.

Dizem-me já os meus sentidos, estão os senhores excelentíssimos a descontarem um ponto de sua inicial desconfiança quanto ao meu são juízo. Mas é assim que funciona: o consumidor, um cordeiro, sem direito a assistência, frente a frente com o representante da temível empresa, um lobo. É a lei dos Jecs, lobo e cordeiro numa sala, a sós. No entanto, o lobo -com permissão de quem? –invade esse território proibido com seus advogados ameaçadoramente engravatados e suas propostas usurpadoras de direitos e conferem ao consumidor a pecha de réu dos crimes econômicos de que é vítima.

Os senhores, que sabem e estudam, duvidem dessa armadilha, não de mim. Duzentos milhões de cordeiros rezam nesse culto jurídico mal jeitoso de alcance zero de Justiça, em que os lobos poderosos apresentam sempre sua proposta estripadora de direitos. Observem vossas excelências, observem aqueles lobos que destroçam nossos direitos, olho vermelho no olho medroso, pálido, das vítimas em pânico no clima tenebroso de um tribunal.  Há até juízes que empurram o consumidor para a conciliação. Por quê?
Assim, por exemplo, ao consumidor solitário – à sua frente os advogados inimigos – que se nega a pagar conta por serviços de responsabilidade que não são seus, e sim de uma empresa pública, acrescidos de multas descabidas, arbitrárias, resta engatinhar porta afora dos Jecs, cabeça baixa , boca amarga, sem contabilizar nem  migalhas dos seus direitos desrespeitados.

Por começo, julgam-se nos Jecs causas cíveis de menor complexidade, essa é a lei. Pois é de maior complexidade para o chamado reles consumidor, excelências. Malograda a conciliação, um juiz, um juiz que pode até ser juiz leigo, ora, diz tal lei, expõe ao consumidor, a som de uma ameaça, os riscos de um litígio. Como a dizer  perigo, se cuida, consumidorzinho, melhor se manter no nível de um fracassado comum, cidadão de quinta categoria, engolir os prejuízos das propostas das empresas tipo pegar ou largar e fechar o bico. Porque para o consumidor que não aceita a proposta da empresa na conciliação, o litígio significa contratar advogado para seguir na luta por seus direitos. O litígio abre livre caminho para o lobo contar com todo o tempo – o tempo, o senhor das injustiças – para dar uma canseira sem fim no choroso carneiro.

Respeitáveis togados, ah, meus amigos, a espécie humana peleja para impôr a este nosso lacrimejante Brasil um pouco de rotina e lógica. Porém, é rir das gentes as gavetas dos procons transbordantes de provas de ações lesivas contra legiões de consumidores. Montanhas de queixas atestam: nunca antes neste país seus cidadãos foram tão espezinhados nos balcões e cativeiros de marketing de megaempresas, bancos, operadoras de telecomunicações, empresas públicas e um sem número de ramos, grandes e pequenos. Todo esse povão lesado obedece à sugestão de sua insignificância, de que nada pode contra os crimes econômicos de que é vítima. Sou repetitivo:os Jecs enfileiram cada um dos milhões de lesados, sozinhos, frente à frente a cada uma dessas empresas predadoras e seus exércitos de advogados ameaçadoramente engravatados, de antemão vitoriosos já na conciliação.


Se quiserem, não me desculpem, apenas me compreendam. Falo a vossas excelências antigos amantes do Direito. Sim, os antigos. Refestelem-se, é um convite, com a fábula do lobo e o cordeiro, de La Fontaine. Restaurem a paixão de sua mocidade, o  Latim: ad rivum eundem lupus et agnus venerant siti compulsi. Superior stabat lupus, longeque inferior agnus. Ao mesmo riacho o lobo e o cordeiro se dirigiram, compelidos pela sede. Na parte de cima da corrente, o lobo. Mais abaixo, o cordeiro. A proposta do lobo, tipo pegar ou largar: fora daqui, está sujando a água que eu bebo. Qui posso facere quod quereris, lupus? –  chora o cordeiro, lembram? Como posso sujar sua água, caro lobo, aqui em baixo do riacho? Predador e vítima, frente a frente, buscando uma conciliação em que o lobo da fábula come o cordeiro e o lobo das conciliações devora o consumidor. Desatinos, más escolhas, amarras das quais não podem se libertar os vestidos de toga e beca.


Será que me compreendem?  O cordeiro, todos os cordeiros, todos, esquentam sem futuro os bancos de espera dos Procons, instituições isentas de poder de tribunal a perambular sem rumo na caça à Justiça. São notoriamente conhecidos os eternos vilões dos Procons, as mesmas empresas, públicas e privadas, que vêm praticando, monotonamente, cumulativamente, impunemente, os mesmos crimes contra o consumidor. Crimes. Alguém togado há de se preocupar em varrer do mapa o estado de barbárie instaurado contra consumidores neste país, como se o Estado não existisse.

Nos bancos de espera dos Procons, consumidores perdendo dias de trabalho, iludidos na crença à Justiça, arrastando-se naqueles corredores, ah, sim, os idosos e enfermos, queixando-se de que precisam fazer caixinha para enterrar seus mortos, embora com plano de sepultamento devidamente pago, queixas de quem não consegue cancelar compras, linhas telefônicas, celulares, sobre cartões de crédito expedidos pelos templos de consumo com a propaganda enganosa de que não há custos, descaso com serviços vendidos e não prestados, descumprimento de contratos, horrorosas cobranças indevidas, cobranças com valores aterrorizantes, a anos luz do combinado no contrato e dizendo ao freguês com a cara mais lavada deste mundo de que se trata de problema de sistema. Ah, bem lembrado, pobre dos cordeiros vítimas fatais da tirania de empresas públicas, principalmente elas. Elas, principalmente.

Ouçam o lamento de um advogado do Procon: e nós ficamos aqui, disse ele, atendendo caso a caso, a varejo, dando murros em ponta de faca. E pensar que tudo vai parar nos Jecs para as conciliações entre lobos imbatíveis e cordeiros indefesos. Companheiros de amor à Justiça, será que me compreendem? Quanto perdem a economia, os direitos da pessoa, suas dignidades, a esperança do brasileiro em não viver um apavorante acaso neste país, em tempo de barbárie movido a conciliações que gratificam o criminoso? Estamos apalpando o evidente. Reiteramos, pois, a vós, respeitáveis vultos austeros de toga e beca, rogamos, nós, os cordeiros, rogamos aos dignos de suas vestiduras de magistrado, suas honras de acadêmicos, suas láureas de catedráticos, dignem-se dar-nos, a nós, consumidores servos dos que nos servem criminosamente, a nós, os cordeiros, os reparos para tais caminhos transviados e esbarros jurídicos titubeados. Sim?

*Apollo Natali é jornalista, formado aos 71 anos, depois de 4 décadas atuando na imprensa. É colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna Desabafos de um ancião”.

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Imagem: reprodução

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