terça-feira, 28 de maio de 2019

"Crise em que estamos no Brasil é fabricada", diz Maria Lucia Fatorelli

Os mais respeitados teórico de economia são claros ao elencar os principais motivos pelos quais as crises estruturais são geradas em Estados nacionais, tais como a derrocada de bancos, a quebra de safras, as epidemias e as guerras. O Brasil não se deparou com nenhum desses fatores nos últimos anos, mas os elevados índices de desemprego e o insucesso das contas públicas mostram que o país passa um momento de caos financeiro.
Então o que pode ter provocado a crise que já atinge patamares nunca antes vistos na história da República? A auditora fiscal aposentada da Receita Federal Maria Lucia Fatorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, alimenta a tese de que o próprio governo, na defesa dos interesses de grandes grupos econômicos, é o responsável por esse quadro. 

"A crise em que estamos é fabricada. O que provocou essa crise foi justamente a política monetária do Banco Central. A partir de 2013, o Copom [Comitê de Política Monetária] começou a subir a taxa Selic, que estava em 7,25%, em todas as suas reuniões. Ela chegou a 14,25% e ficou nesse patamar indecente por mais de um ano sem justificativa, dizia-se que queria combater a inflação, mas essa justificativa é furadíssima", comentou. 

"O que produz inflação no Brasil, especialmente nessa época, é a falta de energia, que subiu em média 60%, houve casos em que subiu 100%, o preço de combustíveis altíssimos com essa politica de preços insana da Petrobras, preço de serviços administrativos, como telefonia. Essa inflação toda é repassada para a chamada dívida pública. O Banco Central aumentou as taxas nesses patamares absurdos e simultaneamente foi aumentando o volume de depósitos voluntários da sobra de caixa dos bancos, as chamadas operações compromissadas", prosseguiu Fatorelli. 

O discurso do governo Bolsonaro de que as reformas estruturais, em especial a da Previdência, são necessárias para tirar o país do atoleiro é falacioso, na opinião da auditora. De acordo com ela, nos 15 anos anteriores a 2015, quando eclodiu a economia, o Produto Interno Bruto do país crescia a uma média de 3,5%, com altos níveis de empregabilidade. 

Este cenário fazia com que o Estado brasileiro não precisasse injetar recursos do orçamento para financiar a seguridade social, conforme rege o artigo 195 da Constituição Federal, já que o aporte de trabalhadores e empregadores era suficiente para manter o pagamento das aposentadorias. 

A partir da crise política que atingiu o governo de Dilma Rousseff, houve forte retração da economia, com uma queda de 4% do PIB nas séries seguintes. A inação da administração pública durante o período de bonança refletiu no quadro atual.

"Não agimos tendo superávit nas contribuições previdenciárias e sociais de dezenas de milhões de reais todo ano. O governo nem precisava entrar com recursos, durante décadas as contribuições davam conta e sobravam até R$ 80 bilhões por ano. Em 2015, sobraram 13 bilhões e também houve uma mudança no superávit primário. Vínhamos produzindo todo ano um superávit primário, ou seja, gastávamos menos do que arrecadávamos com tributos e contribuições, no período de 1995 até 2015 ainda sobrou R$ 1 trilhão. De repente tudo isso mudou", comentou a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida.

Como a solução para a crise, Maria Lucia Fatorelli aposta no inverso da estratégia apresentada pelo ministro Paulo Guedes de rever as regras de aposentadoria. A auditoria lembrou que os recursos financeiros em circulação acabam retroalimentando a economia, ao contrário do que acontece nas mãos dos rentistas.

"O rombo nunca esteve na Previdência, Previdência é solução. O dinheiro que os aposentados recebem eles gastam na feira, o feirante contrata um ajudante, que auxilia sua mãe em casa, o dinheiro gira a economia e acaba voltando para o governo com o pagamento de tributos. Esse dinheiro do rombo do Banco Central é um dinheiro estéril, que volta para a especulação, não alimenta a economia, ele literalmente sangra os cofres públicos", avaliou.

Clique aqui para ouvir a entrevista de Maria Lucia Fatorelli na íntegra.

Fonte: programafaixalivre.com.br
Imagem: reprodução


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