quarta-feira, 31 de julho de 2019

Nem russo e nem petista: hacker de Araraquara era "ostentação". Por Ivan Longo

Por Ivan Longo* - Há algumas semanas, em meio à divulgação de matérias da Vaza Jato, que vêm desnudando a operação Lava Jato e apontando um conluio com nuances parciais entre procuradores do MPF e o ex-juiz, hoje ministro da Justiça, Sergio Moro, a página Pavão Misterioso, oráculo bolsonarista que seria administrado por Carlos Bolsonaro, além da própria Polícia Federal, vinham aventando a possibilidade de que "hackers russos" teriam invadido os celulares de autoridades e repassando as mensagens ao The Intercept Brasil. Havia a desconfiança de que os russos, ainda hoje associados pela direita brasileira aos antigos comunistas soviéticos, eram pagos pelos seus serviços com criptomoedas.

A ideia, ao associar hackers russos - aqui entendidos como "comunistas" -, evidentemente, era transformar o trabalho do jornalista Glenn Greenwald em uma grande conspiração esquerdista contra o governo brasileiro. Não colou. 

Semanas depois, no entanto, eis que uma notícia pega o Brasil de surpresa: 4 pessoas, todas naturais de Araraquara (SP), foram presas na própria cidade, além de Ribeirão Preto e Sã Paulo,em uma investigação da PF que apurava ataques cibernéticos e invasão de celulares de autoridades. Estariam os hackers russos no Brasil vivendo em Araraquara? A indagação rendeu dezenas de piadas e memes nas redes sociais. 

Walter Delgatti Neto, 30, apontado pela PF como o "cabeça" do esquema, no entanto, não tinha qualquer ligação com os russos. Mas se ele não é russo, para parte da mídia tradicional ele poderia ser petista. A narrativa cairia como um luva para Sergio Moro e o núcleo da Lava Jato, que usaria do ódio antipetista incrustado na população brasileira para convencer a opinião pública de que as invasões aos celulares e vazamento de conversas teriam motivações políticas, criminalizando assim o trabalho jornalístico de apuração e divulgação dos diálogos, forçando, assim, um esquecimento natural da gravidade do conteúdo que veio à tona.

A tentativa de classificar Delgatti como um simpatizante do PT foi encampada, principalmente, pelo O Antagonista, site porta-voz da Lava Jato, mas a tese foi acompanhada por outros veículos. A base para a associação eram postagens no Twitter recentes do jovem, conhecido na cidade como Vermelho (não por ser petista, mas por ser ruivo), críticas à operação Lava Jato. Cabe reconhecer aqui que, de fato, os tuítes soavam estranho, já que o suposto hacker passou oito anos longe da rede social e, quando voltou, em meio às reportagens da Vaza Jato, passou a postar conteúdo de política, algo que nunca tinha feito antes. 

Vermelho já era conhecido na cidade como golpista e estelionatário. Envolvido em golpes como falsificação de documentos e invasões de contas bancárias, ele era procurado pela Justiça paulista pelos delitos mencionados antes da operação da PF, na última terça-feira (23), que o prendeu.

Como Delgatti tinha fama de um golpista comum, foi difícil para a opinião pública acreditar que ele era, de fato, o hacker que invadiu o celular de autoridades e abalou o cenário político nacional. Mas seu depoimento, dando detalhes de como chegou às conversas, somado à confirmação de Manuela D'Ávila de que ela teria sido contatada por Vermelho para intermediar o repasse dos diálogos a um jornalista de confiança, indica que o tal "hacker russo" é, de fato, o jovem de Araraquara. 

Ao contrário do que tentou pintar parte da imprensa, tudo indica que as intenções de Vermelho ao conseguir acessar conversas comprometedoras de Moro e procuradores da Lava Jato não passavam de uma forma de inflar seu próprio ego na medida em que ia conseguindo avançar em sua trama. 

De acordo com relatos de pessoas de Araraquara que o conheciam, Delgatti nunca teve relação alguma com política, muito menos com o PT ou com a esquerda. Apesar de ser filiado ao DEM local, partido de direita, fontes garantem que tudo não passava de um jogo de poder.  

De família humilde, Vermelho passou toda a infância e adolescência criado pela avó, Ontília, em uma casa simples de um bairro ainda mais simples de Araraquara, a Vila Xavier. Não há notícias sobre os seus pais. 

Já há alguns anos, no entanto, conhecidos do golpista foram ficando cada vez mais surpreendidos com sua ascensão financeira. Ele viajava recorrentemente ao exterior, postava fotos com notas de dinheiro e desfilava pelo município com "carrões" importados. 

A sua relação com o DEM, segundo informações locais, pode ter sido possibilitada através de sua proximidade com Cristiano Romaqueli, ex-assessor do ex-vereador Ronaldo Napeloso (DEM), que já chegou a ser preso. Romaqueli promoveria, segundo relatos ouvidos pela reportagem da Fórum, festas em uma chácara com prostitutas das quais participaria Vermelho. 

À Fórum, Marcelo Bonholi, experiente jornalista local da Rádio Morada, que já acompanhou outros casos envolvendo o golpista, explicou um pouco de sua personalidade, motivações e do envolvimento fake com política. 

"Ele se filiou ao DEM por puro interesse e não devia nem saber mais que era filiado ao DEM. É aquela história de angariar adeptos a um partido que, aqui em Araraquara, por conta da sua 'enorme' população, qualquer um que entrar no partido é importante para voto de diretoria, etc. Da mesma forma que ele assinou a ficha de filiação, ele assinaria a de desfiliação. É por poder", disse.

"Qualquer envolvimento com o [Cristiano] Romaqueli derruba qualquer tese de 'simpatizante' do PT", analisou outro jornalista local. 

Sobre a personalidade de Vermelho, que deve ter influenciado sua ação, Bonholi explicou: "A intenção dele era simplesmente provar que ele era o 'fodão' nessa área. Até porque, enquanto pessoa, ele é um cara extremamente egocêntrico, narcisista, soberbo, é um cara que era gente boa, conversava com as pessoas, mas isso também fazia parte desse ego inflado dele. Ele queria sempre fazer parte, estar próximo, ser mais simpático, o mais alegre, mas sempre se mostrando em um nível financeiro acima de qualquer outro, mesmo não estando, fazendo isso com dinheiro dos outros através dos golpes que ele aplicava contra pessoas da cidade e fora daqui". 

"Me surpreendia com as fotos dele, muito dinheiro, viagens ao exterior", disse à Fórum uma fonte que estudou com Delgatti na infância e que preferiu não se identificar. 

Segundo ela, na época de escola, lá pela 6ª série do ensino fundamental até o ensino médio, Vermelho não demonstrava dotes avançados de inteligência, era um rapaz aparentemente "tranquilo" e compunha a chamada "turma do fundão". Como o conhecia como um jovem que vivia com a avó em uma casa humilde, a fonte contou à reportagem que se surpreendeu com a "ostentação" do golpista nas redes sociais, anos depois da época escolar, quando já tinham perdido o contato.

Fama de "hacker"

Oura fonte ouvida pela Fórum, que também preferiu não ser identificada, era próxima do irmão mais novo de Walter, Wisllen Delgatti. Os dois eram muitos parecidos não só fisicamente, mas também no ímpeto de cometer delitos. O Vermelhinho, como era conhecido o irão mais novo, chegou a ter problemas com a polícia, ainda menor de idade, quando tentou roubar um caixa eletrônico da Unesp na cidade de Araraquara.

Já naquela época Vermelhinho dizia que seu irmão era hacker e se aproveitava do golpismo de Vermelho. Em suas redes sociais, postava fotos ostentando dinheiro e viagens ao lado de Walter. "O Wisllen postava fotos de viagens na Suíça, Ibiza, Egito. Era muito estranho", contou o colega.

Relatos na cidade dão conta ainda que, já na época de colégio, Delagatti, o Vermelho, já tinha fama de hacker entre os colegas, e que isso teria motivado até mesmo brigas. 

"Esse aí era 'cobra' da cidade. Tinha fama de ser inteligente pra caramba, sempre ligado à área de TI [tecnologia da informação]", disse à reportagem Gustavo Santos, motorista de Uber em Araraquara. 

Delgatti foi visto pela última vez em Araraquara no dia 6 de junho de 2019, quando uma garota registrou um boletim de ocorrência contra ele depois que ele fugiu ao avistar uma viatura de polícia. Vermelho foi detido em Ribeirão Preto.

O ímpeto narcisista e egocêntrico de Vermelho, que reforça sua motivação pessoal ao invadir os celulares de autoridades, é ainda mais evidente diante de sua insistência em divulgar o que havia conseguido de forma aleatória, apenas para se vangloriar, como se quisesse ser pego pela Polícia Federal.   

"Muito burro. Desde a época da escola fazia as coisas para chamar a atenção", disse, via Facebook, um rapaz que afirmava conhecer Delgatti.

A necessidade  de Vermelho em chamar a atenção, para além da exibição de carros, viagens e dinheiro, ficou ainda mais clara, conforme mostrou com exclusividade a Fórum, quando o jovem procurou uma tuiteira aleatória de esquerda para mostrar o que havia conseguido.

Isso se deu também em Araraquara. O repórter Claudio Dias, do site local A Cidade On, teve acesso a conversas que Delgatti teve com uma pessoa da cidade que preferiu não se identificar, onde o golpista exibe seu feito. O diálogo com a pessoa do município aconteceu já em meio às matérias da Vaza Jato.

Em um deles, Vermelho diz que, com as mensagens a que teve aceso, conseguiria, além de dinheiro, "moral". 

O site A Cidade On autorizou Fórum a reproduzir a conversa, que pode ser conferida abaixo:  

"A intenção dele era única: dinheiro, poder e status. E conseguiu. Mesmo preso ele vai sair de lá como o cara que ferrou o juiz Sérgio Moro, o cara que mexeu nas estruturas do governo. Vai sair de lá o rei da balalaica",  analisou Bonholi, o jornalista da Rádio Morada. 

Outros relatos de moradores da cidade dão conta de que, mesmo que Vermelho não fosse o verdadeiro hacker que conseguiu as conversas de autoridades, ele assumiria a culpa somente para ganhar fama. 

Se é ou não o hacker, as apurações ainda vão dizer. A fama, pelo menso, ele já conseguiu.

Quanto ao conteúdo dos diálogos, está cada vez mais difícil para as autoridades provarem que eles foram, como queriam, adulterados. Vide as intenções de Moro em destruir as provas que, teoricamente, o incriminam. 

*Ivan Longo é jornalista e repórter especial da Revista Fórum
Imagem: reprodução

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