sexta-feira, 29 de maio de 2020

Weintraub compara ação do STF à 'Noite dos Cristais' e entidades judaicas reagem

O ministro da educação, Abraham Weintraub, afirmou em uma rede social que a operação deflagrada pela Polícia Federal, que cumpriu mandados de busca e apreensão contra aliados de Bolsonaro sobre fake news contra o STF, será conhecida com a "Noite dos Cristais Brasileira".
Entidades judaicas reagiram à comparação de Weintraub, com "A noite dos Cristais", evento histórico que marcou um período de agressões contra judeus em 1938, cujas ações nazistas resultaram na morte de seis milhões de judeus.

Se referindo aos mandados de busca e apreensão efetuados pela Polícia Federal, cujo alvo eram parlamentares e empresários bolsonaristas, conforme o inquérito aberto no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar ofensas aos ministros da Corte através de fake news, o ministro da educação postou no Twitter:

"Hoje foi o dia da infâmia, VERGONHA NACIONAL, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!". A expressão Sieg Heil é uma saudação nazista que significa "salve a vitória" ou "viva a vitória", usada frequentemente com a saudação de Adolf Hitler

Na manhã desta quinta-feira (28), Weintraub voltou a comparar a ação com o regime nazista, publicando uma foto de militares nazistas apontando armas para um grupo de judeus, com uma mensagem comparando a cena ao Brasil atual. "Primeiro, nos trancaram em casa. Depois, brasileiros honestos buscando trabalho foram algemados. Ontem, 29 famílias tiveram sues lares violados! Sob a mira de armas, pais viram suas crianças e mulheres assustadas terem computadores e celulares apreendidos! Qual o próximo passo?", escreveu.

O texto é uma clara releitura ao texto "E não sobrou ninguém", do pastor luterano Martin Niemoller. "Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu me calei. Então, eles vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então eles vieram buscar os católicos e, com eu era protestante, eu me calei. Então, quando vieram me buscar...Já não restava ninguém para protestar", diz o texto do alemão.

Weintraub não foi alvo da operação da Polícia Federal, mas foi flagrado pedindo a prisão de ministros do STF durante reunião ministerial do dia 22 de abril, cujo conteúdo foi tornado público. As ofensas levaram o ministro Alexandre de Moraes, do STF, dar cinco dias para o ministro da educação prestar depoimento no inquérito das "fake news" contra a Corte. Na avaliação de Moraes, a fala de Weintraub apresentou indícios de três delitos: difamação, injúria e crime contra a segurança nacional. 

O ministro da Justiça, André Mendonça, entrou com um pedido de habeas corpus para barrar o depoimento. Na segunda (25/05), o ministro Celso de Mello enviou cópias do vídeo [da reunião do dia 22 de abril] a todos os ministros da Corte para que fossem comunicados do fato e para que possam, 'querendo', adotar as medidas que julgarem 'pertinentes'. Segundo o decano, a fala de Weintraub foi 'gravíssima aleivosia (calúnia)' 'num discurso de contumelioso (ofensivo) e aparentemente ofensivo ao patrimônio moral' dos ministros.

A reação da entidades judaicas

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) condenou a comparação: "Não há comparação possível entre a Noite dos Cristais, perpetrada pelos nazistas em 1938, e as ações decorrentes de decisão judicial no inquérito do STF, que investiga fake news no Brasil", diz em nota. "A noite dos Cristais, realizada por forças paramilitares nazistas e seus simpatizantes, resultou na morte de centenas de judeus inocentes, na destruição de mais de 250 sinagogas, na depredação de milhares de estabelecimentos comerciais judaicos e no encarceramento e deportação a campos de concentração", continua.

A Conib ressalta que, ao contrário da época do nazismo, os alvos têm direito à defesa. "A comparação feita pelo ministro Abraham Weintraub é, portanto, totalmente descabida e inoportuna, minimizando de forma inaceitável aqueles terríveis acontecimentos, início da marcha nazista que culminou na morte de 6 milhões de judeus, além de outras minorias", conclui.

O grupo Judeus pela Democracia publicou mensagem criticando a comparação. "A ação a mando do STF visa buscar quem financia Fake News e evitar novos linchamentos virtuais. A Noite dos Cristais não foi virtual, mas foi o linchamento real a judeus. O objetivo de hoje foi tentar evitar que novas "noites de cristais" aconteçam com outros povos e pessoas", afirma


A mensagem do ministro foi contestada pelo Comitê Judaico Americano, uma das principais organizações da comunidade judaica nos Estados Unidos, que pediu um basta no uso político do Holocausto por autoridade do governo Jair Bolsonaro. "Chega! O reiterado uso político de termos referentes ao Holocausto por oficiais do governo brasileiro é profundamente ofensivo para a comunidade judaica e insulta as vítimas e os sobreviventes do terror nazista. Isso precisa parar imediatamente", disse a associação pelo Twitter, em inglês, na quarta-feira.

Fonte: Correio Braziliense
Com informações da Agência Estado
Imagem: reprodução

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