terça-feira, 2 de junho de 2020

O que dizem especialistas em Churchill sobre falsa citação feita por filhos de Bolsonaro

A reportagem é de Juliana Gragnani, da BBC News Brasil - Os filhos do presidente Jair Bolsonaro, Flávio e Eduardo, podem até querer que Churchill tenha dito a frase: "os fascistas do futuro chamarão a si mesmos de antifascistas". Mas especialistas que estudam o mais famoso premiê britânico garantem que ele não disse isso, e creem que atribuir a ele é apenas uma maneira de obter credibilidade para as próprias palavras.
O senador Flávio (RJ) e o deputado federal Eduardo (SP) publicaram a frase neste domingo (31) no Twitter, colocando o ex-líder do Reino Unido como seu autor, depois de uma manifestação a favor da democracia em São Paulo. Até a conclusão desta reportagem, a publicação de Flávio tinha 3 mil retuítes e 10,5 mil curtidas. A de Eduardo, mais de 6 mil retuítes e quase 27 mil curtidas.

Uma rápida busca em uma ferramenta de buscas online desmascara o erro, feito também em 2018 pelo governador do estado do Texas, nos Estados Unidos, o republicano Greg Abbot. Há diversas reportagens explicando que não há evidências que provem que Churchill disse essa frase.

Conferir antes de compartilhar é uma das principais recomendações para combater a desinformação, as chamadas "fake news" (notícias falsas). 

"É certo que Churchill nunca disse isso", diz à BBC Brasil Timothy Riley, diretor e curador do Museu Nacional de Churchill, nos Estados Unidos. "Ele foi um autor e orador prolífico. O arquivo é extenso, e não há evidências dessa citação no cânone, nem nos diários e memórias de amigos e colegas." 

Richard Langworth, pesquisador do Hillsdale Churchill Project (projeto de uma faculdade nos EUA que estuda Churchill) e autodenominado historiador das palavras do ícone britânico, faz coro. Não há nada parecido com a citação entre as 80 milhões de palavras sobre Churchill já analisadas por especialistas - que incluem 20 milhões do próprio premiê (entre livros, artigos, discursos e cartas), diz ele. 

Segundo Langworth, Churchill usa o termo "antifascista" com regularidade mais para o fim da Segunda Guerra Mundial, referindo-se a movimentos e entidades específicas, como na Itália e na antiga Iugoslávia, mas nunca de maneira genérica ou pejorativa. "Essa suposta previsão não soa como ele. É um comentário muito simples e nada natural ou realista. Ele pensava e temia o futuro, mas não dessa maneira", afirma. "E ele era muito preciso com sua escolha de palavras."

Para ele, atribuir uma citação de que se gosta a Churichill é um método para se conseguir credibilidade: "É fácil e faz a citação ficar muito mais impressionante se você conectar alguém como Churchill, Gandhi ou Martin Luther King a lela." "Sempre que há um jogo de palavras e sagacidade em uma citação, é fácil pensar que Churchill poderia ter dito aquilo, já que ele era um mestre com as palavras e muito esperto", opina Riley. 

Há tantas atribuições incorretas a Churchill e outras personalidades que existe um termo em inglês para o fenômeno: Churchillian Drift, algo como "desvio de Churchill", em tradução livre. O termo foi cunhado pelo escritor e apresentador da BBC Nigel Rees.

Rees, um especialista em citações e apresentador de um programa de auditório em que é preciso adivinhar quem disse determinada citação (Quote...Unquote), diz que cunhou o termo depois de ver tantas atribuições incorretas a pessoas como Churchill, Albert Einstein e Shakespeare.

"O termo serve para designar o processo de reatribuição de uma citação de uma pessoa menos ilustre a uma pessoa mais conhecida. Ou então para legitimar algo que a própria pessoa quer dizer", explica ele. "A pessoa quer dizer determinada frase, mas ela ficará mais aceitável e com mais peso se for ligada a alguém mais conhecido.

Ou seja, um Churchillian Drift serve também para outras citações deslocadas. No Brasil, umas das grandes "vítimas" é a escritora Clarice Lispector (1920 - 1977), por exemplo. Para Langworth, só grandes figuras com grandes citações na vida real são vítimas e alvos fáceis de citações incorretas. E Riley diz que citar Churchill é uma forma de tentar inspirar, assim como tentar ganhar credibilidade.                     

'Grandes líderes'



Quando o então candidato Jair Bolsonaro venceu as eleições no Brasil em 2018, fez uma live no Facebook em que segurou um livro de memórias da Segunda Guerra de Churchill, entre outros livros, e disse querer "inspirar-se em granes líderes". 

Primeiro-ministro do Reino Unido entre 1940 e 1945, período mais severo da Segunda Guerra Mundial, e novamente premiê de 1951 a 1955, Churchill é famoso por seus discursos e por ter liderado com sucesso a resistência britânica. Era um conservador contrário ao fascismo, que assumiu uma posição contrária a Hitler desde o começo, diz Hiley, do Museu Nacional de Churchill, nos EUA.

Foi um protesto na Paulista a favor da democracia e contra o fascismo que motivou as publicações dos filhos de Bolsonaro neste domingo (31). 

Para Riley, algo que Churchill defenderia era não só "conhecer", mas "aprender e aceitar os fatos da história". "Ele estudava muito a história e a usava para formar sua opinião e inspirar as pessoas. Isso é algo de que precisamos desesperadamente nos dias de hoje", afirma. "Precisamos olhar para o passado e aprender com isso". 

Imagem: reprodução/Foto: Andrew JS Hearer

[É #FAKE que Winston Churchill disse que 'os fascistas do futuro chamarão a si mesmos de antifascistas': "Compartilhada por filhos do presidente Bolsonaro, frase atribuída a primeiro-ministro britânico já circulou há dois anos em outra versão como sendo de José Saramago. Ela não foi dita por nenhum dos dois."]

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