terça-feira, 11 de agosto de 2020

Menos editorais e mais jornalismo. Por Moisés Mendes

Por Moisés Mendes, em seu blog - "Há uma certa excitação entre jornalistas com o editorial em que a Folha condena "a sofreguidão com que Moro se prontificou a participar do governo Bolsonaro". Os Frias descobriram só agora que a cumplicidade do ex-juiz com a extrema direita "abalou sua credibilidade e, por extensão, a da Lava-Jato".

O que isso significa, enquanto a conta dos mortos da pandemia passa dos cem mil? Nada. Significa apenas que o editorial teve grande repercussão entre jornalistas.

Um editorial do Globo, da Folha ou do Estadão dizendo que Moro era messiânico é como uma paisagem, uma árvore ou um campo com geada. Um editorial da grande imprensa e um poema do poeta concretista Anauréclito Expedito do Espírito Santo valem a mesma coisa. Com a vantagem de que o poeta Anauréclito não existe.

Um editorial de um jornal arrependido, mesmo que expresse a posição de uma grande corporação da velha mídia, não tem hoje valor algum. 

O editorial que eles publicam não será lido por quase ninguém, além dos jornalistas, porque pouco importa o arrependimento de Globo, Folha e Estadão como criadores da Lava-Jato e de Bolsonaro. Além de não significarem nada como expressão política, são cada vez mais precários. Foi-se o tempo em que um editorial, mesmo sem dizer muita coisa, nos oferecia o prazer da leitura de textos parnasianos. [colocamos link no termo por desconhecê-lo, com desculpas pela ignorância]   

Hoje, um editoria colegial contra Sergio Moro, Bolsonaro e até contra os militares vale uma nota falsa de R$ 200. Até porque editoriais não são produtos virtuais abertos, mas artigos acessíveis apenas aos assinantes dos jornais.

Só os que pagam para ler Estadão, Globo e Folha ficam sabendo na fonte que eles agora condenam Moro e Bolsonaro. Os três alardeiam que são contra seus ex-parceiros, mas cobram para que suas posições sejam conhecidas.

É constrangedor para um leitor descobrir, no impulso da curiosidade, que deve pagar para ler os editorias dos jornalões arrependidos do que fizeram no inverno de 2016. O certo é que mil editorias golpistas não serão anulados por um ou dois editoriais com pedidos de remissão. Não há como ser misericordioso com os cúmplices de Bolsonaro.

O jornalismo da grande imprensa vive de arrependimentos intermitentes. Um editorial hoje pode ser apenas um truque para que os jornais tenham mais adiante a prova de que abandonaram suas criaturas.

Jornais que contribuíram para a ascensão de um déspota não precisam publicar editoriais com o tom constrangido de pedidos de perdão. Precisam apenas fazer jornalismo." 

Imagem: reprodução

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