terça-feira, 21 de setembro de 2021

Jair na ONU. A vergonha nossa de cada dia, por Eliara Santana

www.seuguara.com.br/ONU/discurso/Jair Bolsonaro/mentiras/
Por Eliara Santana, em seu blog: O presidente Jair Bolsonaro fez hoje um discurso de pouco mais de 12 minutos na abertura da 76ª Assembleia Geral da ONU. Foi um discurso pífio, repleto de chavões, repleto de lugares-comuns, ilusionista, falacioso, mentiroso. Típico de Jair, o incomível.
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Havia, por parte de analistas, a expectativa de que o presidente iria "recuar", adotar um tom, "moderado". Jair não recuou. Ele manteve e defendeu as suas pautas, não recuou em nada: negacionismo, pauta moral, falácias econômicas, tudo igual, manteve um tom de fascista moderado, acomodado. Mas facista.


Mentiu descaradamente. O discurso é acinte do começo ao fim.


Serve ao ilusionismo de sua base, claro, mas expões a fragilidade do governo brasileiro porque foi absolutamente inócuo na ONU. Não disse nada. Não apresentou nada. Não pautou as questões que interessa. Enfim, o país mantido na lata do lixo da geopolítica.


Vou "dividir" o discurso em alguns tópicos principais para compreendermos o eixo geral bolsonarista: 


Brasil "diferente"

Jair abriu o discurso falando que queria mostrar um "Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões". Marcou então o embate com a mídia, bem ao estilo Trump e Bannon.


Então, passamos a ouvir uma sucessão de mentiras e clichês, além de absurdos delirantes. Jair é mentiroso contumaz, isso já é bastante evidente, então, não há que se esperar nada diferente. E se alguns comentaristas apostavam em "recuo", "moderação", o que vimos foi apenas um fascista moderado, um pouquinho contido, fingindo ser democrata.


Além disso, ele trouxe no discurso ações comezinhas, corriqueiras, cotidianas da vida econômica e administrativa nacional quando, numa Assembleia Geral da ONU, deveria colocar o Brasil no cenário geopolítico, pautar uma discussão macro, pautar temas.


Para dezenas de chefes de Estado do mundo, ele fala:


"Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada. O Brasil possui o maior programa de parceria de investimentos com a iniciativa privada de sua história. Programa que já é uma realidade e está em franca execução. Até aqui, foram contratados US$ 100 bilhões de novos investimentos e arrecadados US$ 23 bilhões em outorgas. Na área de infraestrutura, leiloamos, para a iniciativa privada, 34 aeroportos e 29 terminais portuários. Já são mais de US$ 6 bilhões em contratos privados para novas ferrovias. Introduzimos o sistema de autorizações ferroviárias, o que aproxima nosso modelo ao americano. Em poucos dias, recebemos 14 requerimentos de autorizações para novas ferrovias com quase US$ 15 bilhões de investimentos privados. Em nosso governo promovemos o ressurgimento do modal ferroviário".


Claro, o Brasil "diferente" que ele quis apresentar é repleto de mentiras: "Como reflexo, menor consumo de combustíveis fósseis e redução do custo Brasil, em especial no barateamento da produção de alimentos. Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da história no setor foi realizado em abril, com concessão ao setor privado dos serviços de distribuição de água e esgoto no Rio de Janeiro".


Onde vemos avanço no saneamento no Brasil? 


Prossegue: "O Brasil já é um exemplo na geração de energia com 83% advinda de fontes renováveis".


O apagão está batendo à nossa porta, não houve investimento em fontes renováveis, há crise hídrica e nada foi feito, e os brasileiros ficam com a luz apagada o máximo que podem para economizar na conta de luz. Onde está isso que Jair vocifera?


E do alto de sua cretinice, se expressou com veemência: "QUAL PAÍS DO MUNDO TEM UMA POLÍTICA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL COMO A NOSSA? Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia!".


O país decepa a Amazônia, o Pantanal, o cerrado; há garimpo ilegal, exploração de grileiros, queimadas criminosas, e nada é feito. O governo é cúmplice da destruição.


Prossegue Jair, sem pudor: "O futuro do emprego verde está no Brasil: energia renovável, agricultura sustentável, indústria de baixa emissão, saneamento básico, tratamento de resíduos e turismo". 


E também teve a cara de pau de dizer que a economia vai bem, que o Brasil tem um dos melhores desempenhos entre os emergentes. MENTIRA! A economia brasileira vai muito mal, mesmo entre os emergentes. Nossa economia encolheu, está encolhendo, vivemos sob o fantasma da estagflação. E o PIB está caindo. A previsão do FMI para o ano que vem não é boa.


Ele também mencionou a corrupção, claro, mentindo: "Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção". Quando ele é denunciado na CPI da Covid e os filhos são denunciados nos esquemas de rachadinha?


E da caixinha de ilusionismo ele retira pérolas da falta de sentido, para manter acesa a chama do medo do comunismo e ocultar os problemas graves:

"Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas. Nosso Banco de Desenvolvimento era usado para financiar obras em países comunistas, sem garantias. Quem honra esses compromissos é o próprio povo brasileiro. Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada".


Falar em credibilidade quando o Brasil vive momento de fuga de capital estrangeiro é de foto interessante.  


Pauta Moral

Ele deixou clara qual é a base de seu governo e o que move sues apoiadores, uma pauta moral enviesada e absolutamente conservadora. Bolsonaro disse que "o Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo. Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo".


A declaração de "à beira do socialismo", por mais ridícula que possa parecer, e é, serve bem à falácia moralista do discurso que anima a base dele. É uma construção simbólica de peso, bastante presente nas discussões dos grupos de apoio. É um elemento importante do discurso dele, desde sempre. 

Segundo Jair, "temos a família tradicional como fundamento da civilização. E a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e expressão".


Negacionismo e ataque a governadores

Defendeu abertamente na ONU o tal tratamento precoce. Sem pudor. Falou que quase 90% da população recebeu a primeira dose, o que é mentira, pois o percentual é de 66,62%, ou pouco mais de 142 milhões de pessoas (dados do Consórcio de Veículos de Imprensa em 20-09).


E atacou governadores. Bolsonaro manteve a mesma falácia - criticada, aliás, pelo documento da Unesco sobre desinfodemia - que mantém desde o início da pandemia: combate à pandemia X combate desemprego, culpando os governadores que adotaram as medidas de distanciamento social, quem adotaram algo próximo do lockdown.


"Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo. No Brasil, para atender aqueles mais humildes, obrigados a ficar em casa por decisão de governadores e prefeitos e que perderam sua renda, concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020".


É absurdo que após quase dois anos de pandemia, Bolsonaro faça essa ligação, jogando a culpa da política econômica desastrosa na conta da pandemia, como se a inflação fosse resultado das medidas de distanciamento e isolamento. E acusando prefeitos e governadores. 


O negacionismo ficou explícito, e ele não teve o menor pudor em reafirmar, colocando-se inclusive como quem fez uso de cloroquina:

"Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina. Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seus uso off-label. Não entendemos porque muitos países, juntamente com a grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos".


A única coisa positiva foi o fato de ele ter jogado a conta do tratamento precoce também no colo do Conselho Federal de Medicina.


Balcão de negócios

Ao melhor estilo propaganda da Ricardo Eletro, Bolsonaro tentou convencer os outros países de que o Brasil está ótimo para investimentos. Numa propaganda tosca, afirmou: "Temos tudo o que investidor procura - um grande mercado consumidor, excelentes ativos, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo".


No encerramento, ainda reforçou a ideia: "Meu governo recuperou a credibilidade externa e, hoje, se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos".

Lastimável.


Defesa do Agronegócio e da exploração das terra indígenas

Jair fez uma defesa dos setor, só não falou do marco temporal. Segundo ele, "nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional".


Sobre os povos indígenas, ele disse: "14% do território nacional, ou seja, mais de 110 milhões de hectares, uma área equivalente a Alemanha e França juntas, é destinada às reservas indígenas. Nessas regiões, 600.000 índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar sua terras para a agricultura e outras atividades".


Que outras atividades? Garimpo nas terras indígenas? Os povos indígenas querem utilizar as terras para a agricultura nos moldes do agronegócio? 


Defesa dos atos de 7 de setembro

Sem pudor nenhum, Jair se referiu aos atos golpistas de 7 de setembro, mobilizados por insultos e ameaças ao STF, como atos democráticos: 

"No último 7 de setembro, data de nossa Independência, milhões de brasileiros, de forma pacífica e patriótica, forma às ruas, na maior manifestação de nossa história, mostrar que não abrem mão da democracia, das liberdades individuais e de apoio ao nosso governo". 


E ainda mente ao dizer que foi a maior manifestação da história. 


Enfim, dizer que Jair mentiu todo o discurso é redundante. Ele chego ao poder a partir de várias grandes mentiras, toda aceita e encobertas pelos grupos de poder. Portanto, ele se sente autorizado a mentir na ONU. E a afundar o Brasil ainda mais.


Imagem: reprodução/redes sociais


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