quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um dia na vida de quem lida com pessoas.

Nem falar e muito menos dar uma opinião. Não porque era proibido, ou porque não teria valor algum. Dado  às  circunstâncias o problema era ser eficiente, atender rápido e com presteza. Passei bom tempo envolvido com atendimento direto às pessoas. Esta sempre foi minha principal atividade. Como toda a experiência adquirida com o relacionamento humano gera valor, sempre procurei agir com consciência e responsabilidade no exercício do cargo e segurar a barra mantendo aquele jogo de cintura. No entanto, só o tempo é que determina nossa real capacidade em superar as difíceis situações do cotidiano. Afinal, existiam existem variantes inesperadas quando o assunto é o vil metal dinheiro e a forma de adquiri-lo [...]
Além do que tinha que garantir o bem-estar e a educação dos "herdeiros" de minhas dívidas e filosofias, que adoravam pão de queijo, iogurte e farofa com ovo. Porém, algumas coisas que eu ouvi naquela fila indiana (única) não tem preço, guardei para que um dia eu pudesse contar para as pessoas. Penso que alguém possa de alguma forma, tirar proveito de tanta coisa boa, e algumas "pérolas de sabedoria" que pude verificar.
O inter-relacionamento com o ser humano é mesmo incrível. De modo relevante ou por vezes inadequadamente, as pessoas se manifestam segundo a sua própria razão. E na maioria das vêzes segundo sua emoção. E haja tolerância para manter o controle e segurar a vontade de dizer, tenham a santa paciência pessoal! Todo mundo será atendido!


Diz a sabedoria popular que Deus nos deu dois ouvidos e uma só boca, para que soubessemos da importância de ouvir antes de falar. Então, ouvi umas coisas frases que guardei na memória, e lembro como se estive ouvindo agora. Palavras ditas expontaneamente. Na maioria das vezes era só reclamação infundada. Poucas vezes para reconhecer o esforço de cada um para que todo mundo saisse dali contente e satisfeito. Missão quase impossível considerando que as horas passam voando quando se tem dezenas de pessoas esperando para serem atendidas. Havia gente que contava passagens pessoais, pediam conselhos, ou simplesmente queriam jogar uma conversa fora enquanto esperavam a conclusão do atendimento. Talvez para amenizar o ambiente sempre stressante e quase sempre tenso as opiniões vinham de qualquer acontecimento, e sobre os mais variados assuntos. Como o procedimento padrão era executar tudo no menor tempo possível, quase sempre a gente se limitava em apenas ouvir tudo, de todos.


Tinha dia, como se diz popularmente, que "fervia o caldeirão". Era muita gente falando ao mesmo tempo. E dentre elas as figurinhas carimbadas que apareciam quase todo dia.
Seu José, confessara que gostava de vir ali. Encontrava os amigos. Tinha sempre uma novidade para contar. Era bom ouví-lo. Quando falava assumia postura de um filósofo contemporâneo. Certa vez, ao ouvir duas pessoas conversando sobre religião (sim. até este assunto rolava), onde uma dizia que a sua era a verdadeira, e a outra teimava que era a dela, o bom velhinho  não perdeu a oportunidade - pra mim vale o que Nosso Senhor Jesus Cristo disse - "Ame teu próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de tudo". Já o Seu Hamilton, o "mirto loco" como o chamavam sempre vinha com frases inusitadas (dizem que já tinha feito tratamento psiquiátrico). Em uma ocasião queria saber quem era o político Antero de Quental,  pois lá em seu distrito havia sido inaugurada uma escola de primeiro grau (ensino fundamental) com o nome do grande escritor sonesista comparado a Camões. Quando do preenchimento da sua ficha cadastral, "mirto loco" queria que constasse do seu patrimônio: um bode, 30 galinhas e um galo, um casal de pombos. Pedro Godoi, morador em uma Vila distante, pequeno produtor rural aventureiro, a cada ano mudava a cultura do plantio, inventava sempre uma nova atividade que dizia ser lucrativa. Amparado pela fiança do seu pai tomava emprestado qualquer verba disponibilizada no momento. E sempre estava às voltas com composição de dívidas. Bom de papo, extrovertido, angariava a simpatia de todos. De um jeito ou de outro escapava sempre do pepino problema. E Dona Jora, proprietária de uma pequena mercearia, vinha e voltava umas tres ou quatro vezes. Trabalhava como louca para pagar os boletos fornecedores. Era boa cliente, mas nitidamente tinha problemas de administração de seu pequeno negócio que tocava há anos do mesmo "jeitinho".
É inevitável, quando se trabalha com muita gente, não se envolver com a vida da comunidade, seus problemas e seus anseios. Fazer amigos, ganhar alguns desafetos. Mas, era gratificante poder ser útil de alguma forma. Vivendo dias tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo interagindo com esse pessoal batalhador gente que faz e acontece nas pequenas cidades do interior, se construia a Vida. Era como pertencer a uma grande familia. Muita coisa aprendi com esses momentos exclusivos que vieram acrescentar experências marcantes ao nosso projeto de vida. Ficarão para sempre em minha memória e certamente na dos colegas de trabalho. Talvez até volte a comentar por aqui  mais algumas histórias não escritas. Pois, como se diz, recordar é viver.








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2 comentários:

Unknown disse...

Guará,
Vim deixar-lhe o meu abraço.

GUARACI CELSO PRIMO disse...

Obrigado Erico,
Cabra "bão" de causo taí!
Abraço.

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