domingo, 22 de março de 2015

Corrupção: toma que o filho também é seu

A política brasileira ganhou proporções monstruosas nos últimos meses. Não foi só por causa do escândalo de corrupção na Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato deflagrada pela Polícia Federal. Há outros escândalos de iguais proporções, como o "Trensalão" e o recente "Suiçalão". Mas a mídia brasileira resolveu dedicar-se com exclusividade às repercussões da Lava Jato, em virtude de envolver o atual governo. Justamente por que a imprensa tradicional e os meios de comunicação no Brasil tem um lado partidário.
De um modo geral, a mídia no Brasil vem agindo como se fosse um partido político legalmente constituído. E, obviamente de oposição àquele ao qual pertence a atual presidente da República, reeleita democraticamente para governar por mais quatro anos. Fica claro portanto, que foco principal é justamente o escândalo advindo com as investigações da Lava Jato. E das delações premiadas, daqueles  que foram presos pela PF nas investigações, e seletivamente vazadas para a imprensa. O processo judicial está apenas no início. E quem for sentenciado como culpado, certamente terá que pagar.

"Trensalão" e "Suiçalão, por ora ficam em segundo plano. Entretanto, iguais ao chamado "petrolão",esses escândalos comprovam  que a corrupção vem sendo sistematicamente praticada no Brasil há muito tempo. E está presente em quase todos os órgãos governamentais, nas empresas estatais e ramificada em vários setores do poder privado. O que é interessante observar no atual momento, é que nenhum partido político, quer da situação ou da oposição, aceita a peja de ser o precursor de toda essa onda nociva de corrupção que assola o país.

Na verdade, esse mal que impede o Brasil de seguir em constante progresso, dura pelo menos uns quinhentos anos. Somente com o progresso da tecnologia e a popularização da internet, é que ficou mais difícil varrer a sujeira para debaixo do tapete, como era antigamente. A polarização em torno do assunto ganhou força entre o governo de esquerda e seus opositores de direita nos últimos dias. Justamente com o advento da Operação Lava Jato e as revelações que vieram à tona.

Alvo de protestos recentes, que inclusive pediam seu impeachment, a presidente Dilma Rousseff em seus últimos pronunciamentos falou sobre sobre a corrupção, se referindo a ela como uma  "Senhora idosa". Dando a entender que este mal convive harmoniosamente com o poder público, em todas as esferas desde longa data. Com a evidente intenção de afirmar que a corrupção não nasceu durante o seu governo. Muito menos é exclusividade do Partido ao qual pertence. Isto é, não reconhece a paternidade desse filho bastardo que a mídia cativa e seus adversários costumam lhe atribuir.

Paternidade, igualmente rejeitada por governantes anteriores. Como demonstrou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao rebater as declarações da presidente da República. Em uma reação de auto-defesa, FHC rebateu as afirmações de Dilma e declarou à imprensa que a corrupção é um "bebê". Uma atitude que demonstra a intenção de isentar o seu governo na época dos seus dois mandatos e livrar também o seu Partido (PSDB) de todo e qualquer resquício de corrupção. 

O ex-presidente disse em entrevista à Globo News, que “essa corrupção não é uma senhora idosa, é uma mocinha, bebê quase”. Entretanto, “o ‘bebê’ de Fernando Henrique nasceu sob o governo dele, nos anos 90; esquema do trensalão tucano [no Estado de São Paulo, reduto do PSDB] foi repetido na Petrobras”, como demonstra e comprova uma matéria publicada no site Viomundo.    

Reproduzo os primeiros parágrafos:

"A mídia corporativa nunca apresentou o trensalão tucano da mesma forma que o fez com o mensalão petista. Não contextualizou as informações, nem usou gráficos ou detalhou os grupos políticos envolvidos no escândalo. Não publicou cadernos especiais.

Foi preciso um partido político interessado no caso, o PT, para fazê-lo.

Segundo uma apresentação organizada pelos petistas da Assembleia Legislativa de São Paulo, o esquema teve início no governo Fleury, entre 1990 e 1994. Aloysio Nunes era o vice-governador, cargo que acumulou com o de secretário de Transportes Metropolitanos. Mas o cartel das empresas fornecedoras decolou mesmo no primeiro mandato de Mário Covas, 1995-1998.
O cartel envolveu contratos de R$ 40 bilhões. O Ministério Público busca reaver R$ 2 bilhões.

Como denunciou Conceição Lemes neste espaço, há um nexo entre o esquema do trensalão, a Operação Castelo de Areia (que foi anulada) e a Operação Lava Jato.
Acrescente-se a isso a Lista de Furnas.

Relembrando: a Lista de Furnas é um esquema pelo qual teriam sido arrecadados quase R$ 40 milhões de fornecedores da estatal, distribuídos nas campanhas de 2002.
A campanha de José Serra (Planalto) teria recebido R$ 7 milhões, Geraldo Alckmin (São Paulo) R$ 9,3 milhões e Aécio Neves (Minas Gerais) R$ 5,5 milhões.

Há na lista a menção explícita de que as campanhas a deputado federal de 2002 foram irrigadas diretamente pelas construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Corrêa e Engevix.
Muito embora seja senso comum que as empreiteiras sempre estiveram no centro da corrupção e do caixa dois no Brasil, só agora existem provas definitivas disso.

Ao estabelecer o nexo entre trensalão, Camargo Corrêa e escândalo da Petrobras, Conceição Lemes escreveu, em Mídia concentra foco na Lava Jato, mas ignora empreiteiras na Castelo de Areia e no trensalão:

Camargo Corrêa: a conexão Lava Jato - castelo de areia - propinoduto tucano 

Na verdade, as digitais da Camargo Corrêa estão nos três escândalos mencionados no intertítulo acima.
Por exemplo, ela e a Andrade  Gutierrez (outra empreiteira denunciada na Lava Jato e no trensalão) têm um contrato de R$ 1,2 bilhão para execução de um dos lotes da Linha 5-Lilás do Metrô de São Paulo, onde houve ação do cartel e superfaturamento de mais de R$ 300 milhões.

Não é o único. Os contratos do governo paulista com a Camargo Corrêa somam quase R$ 11 bilhões. Entre as obras, figuram o desassoreamento da calha do rio Tietê e  o Rodoanel Sul, onde o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou superfaturamento.

Estima-se que, de 1996 a 2010, a Camargo Corrêa teria pago cerca de R$ 200 milhões em propina para agentes públicos de sucessivos governos tucanos em São Paulo. O cálculo baseia-se no valor dos contratos da empreiteira  com o governo paulista e o percentual de propina  – 3% a 6% — pago a agentes públicos. Já em todo o país o esquema teria movimentado mais de R$ 500 milhões.
– Além da Camargo Corrêa, outras empreiteiras denunciadas na Lava Jato  também estão no trensalão tucano? – alguns leitores devem estar já perguntando.

A resposta é sim. Iesa, OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão e Galvão Engenharia, por exemplo, estão tanto no trensalão quanto na Lava Jato. Agora, com o acordo de leniência fechado entre a empresa Setal e o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), ficamos sabendo que o esquema das empreiteiras na Petrobras nasceu no final dos anos 90, no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso."

Portanto, não seria um bebê, como afirmou o ex-presidente.

Conclusão: o Brasil estaria muito melhor se os governantes assumissem seus erros e não houvesse tanta impunidade amparada pelo excesso de privilégios auto-concedidos. Os inimigos da sociedade não é necessariamente esse, ou aquele Partido político. Mas, exclusivamente a própria corrupção que contamina a maioria deles, em menor ou maior escala. E por igual, atinge os três poderes poderes da República, Legislativo, Executivo, Judiciário. E também o poder privado, que muitas vezes tenta subjugar o poder público e fazê-lo refém de seus objetivos obscuros.

Um instrumento eficaz contra este inimigo comum que está para ser construído, seria a Reforma Política. Que deve se ampla, irrestrita, sem que prevaleça prioritariamente a vontade do Congresso Nacional, igualmente contaminado. Mas, que esse instrumento represente de um modo geral o ponto de vista da sociedade e das instituições legal e democraticamente constituídas.

Imagem: reprodução/muco

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