sexta-feira, 27 de março de 2020

Só existe uma estratégia segura para vencer a peste, por Luis Nassif

Por Luis Nassif, no GGN - A extensão da epidemia, as notícias de filas nas portas dos hospitais, as grandes tragédias sociais, e as familiares, produzirão uma segunda onde de terror. E aí poderá ser trágico, pois o pânico desorganizará da pior forma toda a atividade produtiva.
A lógica da economia segue a lógica da saúde. O ponto central de instabilidade é o avanço de uma doença, trazendo um conjunto amplo de incertezas:
  1. Os graus de letalidade.
  2. A capacidade dos governos em enfrentá-la.
  3. O tempo necessário para sua erradicação.
  4. a capacidade do governo em apoiar as empresas e as populações vulneráveis.
O ponto-chave é a rede hospitalar e a capacidade de oferecer leitos de UTI e de tratamento semi-intensivo. Essa é a linha central, em torno da qual há duas estratégias de enfrentamento, ambas trazendo mais incertezas.

A estratégia da quarentena horizontal estica o prazo de vigência da doença, para evitar picos que colocassem a demanda muito acima da capacidade de atendimento dos hospitais.

Por outro lado, a capacidade da rede hospitalar dependerá da rapidez da economia em produzir produtos estratégicos - respiradores e máscaras - e dos governos estaduais e municipais em improvisar centros de atendimento em estádios de futebol e hotéis.

Quanto mais rápido atuarem, menor será o tempo de duração da quarentena. Quanto maior o tempo da quarentena, maiores os estragos  na economia. 

Aí entra em outra variável, que é a capacidade dos governos em trabalhar os problemas sociais e econômicos decorrentes da quarentena.

Ele teria que agir nas seguintes frentes: 
  1. Vulneráveis: definir uma renda mínima e operacionalizar a chegada do dinheiro até eles.
  2. Pequenas e médias empresas: montar sistemas de crédito que permitam atravessar o período de tormenta.
  3. Grandes empresas: garantir a recompra de debêntures, recebíveis ou crédito de longo prazo para preservar seu capital de giro.
  4. Sistema bancário: prover de liquidez, inclusive para dar liquidez ao mercado de capitais.             
É o único caminho para combater a peste, conter os estragos econômicos e preparar para a retomada, assim que a doença for vencida.

O segundo caminho - estimulado por Jair Bolsonaro - consiste em deixar tudo solto e acelerar o pico da doença. Com isso, também se reduzirá o tempo de quarentena, mas da pior forma possível: expondo milhares de pessoas à morte. Os infectados, assintomáticos ou curados, tornam-se imunes à doença, deixando de transmiti-la. E os mortos ficam pelo caminho.

Por essa visão, sacrificam-se algumas milhares de pessoas pelo coronavírus, para salvar a maioria pela retomada da economia. No fundo, é uma maneira do governo admitir sua incompetência para conduzir a economia de guerra e deixar que cada qual se vire.

Trata-se de uma visão equivocada, inclusive do lado econômico, pois não leva em consideração o chamado fator pânico. [Prefeito de Milão admite erro por ter apoiado campanha para a cidade não parar no início da pandemia de coronavírus na Itália].

O governo tem demonstrado uma má vontade expressa em erguer logo programas de assistência social para as populações vulneráveis. Deixou ao Deus-dará a população carcerária. E, com o estímulo de Bolsonaro à quarentena vertical, haverá uma enorme rachadura nos planos de defesa dos governos estaduais e uma explosão de novas doenças, especialmente nas capitais, lideradas por São Paulo e Rio. 

Até agora, a população experimentou uma primeira onda de temor, que a fez acatar as determinações de quarentena. Bolsonaro está implodindo essas recomendações. Pode-se esperar, então, uma onda de rebelião contra as medidas restritivas [carreatas e mais carreatas estão surgindo em vários pontos do país, contra a quarentena]. Essa onda produzirá um aumento grande do número de infectados.

A extensão da epidemia, as notícias de filas nas portas dos hospitais, as grandes tragédias sociais, e as familiares, produzirão uma segunda onde de terror. E aí poderá ser trágico, pois o pânico desorganizará da pior forma toda a atividade produtiva.

A Itália experimentou a flexibilização da quarentena logo que identificou o coronavírus. A consequência foi uma tragédia social, que não apenas deixou milhares de mortos, como afetou - da forma mais desorganizada possível - todo o ambiente econômico. [Itália pagou um preço alto ao resistir a medidas de isolamento social para conter coronavírus].

Mas o país está nas mãos de uma pessoa totalmente sem escrúpulos e sem discernimento. Enquanto Bolsonaro estiver no comando, a morte continuará rondando ele e o país.


Imagem: reprodução/Foto: EFE

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