sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A doença de Lula, o SUS, jornalistas, e as Redes Sociais

Assim que começaram as publicações sobre a doença do ex-presidente Lula, jornalistas ligados aos grandes meios de comunicação, jornalistas independentes, blogueiros, foram bombardeados por intensa manifestação de seus leitores. Através das redes sociais descambou uma série implacável de comentários desprovidos de um mínimo de respeito, cheios de ódio, e até certo ponto desumanos. O ataque tinha como objetivo comentar ou tripudiar em cima do que foi escrito sobre o estado de saúde de Lula e sua internação. A polêmica chegou a todos os segmentos da mídia. Em campo os anti-Lula e os pró-Lula.
Sopesadas as questões ideológicas e partidárias, pessoas comuns, artistas, e personalidades influentes do meio jornalístico, usando o Facebock e outras redes sociais, aproveitaram a oportunidade para, ou demonstrar solidariedade, ou desmoralizar a pessoa do ex-presidente.
A suposta revolta encontrou guarida no fato de Lula ter optado pelo atendimento em um hospital da rede privada, e não pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Seus algozes usaram esta atitude para criticar também o sistema. Lula preferiu o Hospital Sírio-Libanês, o mesmo onde estiveram em tratamento pela mesma moléstia, o ex-vice presidente, José de Alencar e a presidente Dilma Roussef.

Vamos dizer que o Governo Lula, à frente da administração do país, não foi lá nenhum exemplo de ética e probidade. Como é, aliás, a conduta da maioria dos políticos, independente da filiação partidária. E merece ser criticado em muitas coisas. Foi leniente com escândalos de corrupção que envolveram seu principais comandantes. Mas fez coisas boas para a maioria dos brasileiros, investindo pesado no social. Mas, daí a fomentar e sugerir agressivamente que o ex-presidente deveria ter recorrido ao SUS para o tratamento do câncer de que foi acometido, parece ser uma grande tolice. Vamos supor que ele optasse pelo SUS. As mesmas vozes não se levantariam para acusá-lo de demagogo? 

O que importa neste momento crítico, é a questão dos comentários referentes à situação   extremamente delicada em que se encontra a pessoa, não o político. Visto, ainda, como o grande inimigo daqueles que querem retornar ao poder. Como se isso significasse conduzir o povo ao paraíso, onde a sociedade estaria definitivamente livre da corrupçaõ e de todos os males. Como dito, os comentários vêem carregados de rancor, sentimento de revanchismo, inveja talvez. Enfim, de uma maldade sem precedentes. Vamos a alguns deles, antes da exposição de alguns pensamentos sensatos produzidos com equilíbrio, sem os vícios do fanatismo político.

"O povo precisa ter pena do cara,  não é mesmo? Que câncer, que nada! Isso é pura armação de um bandido mentiroso e que não tem saída. Só um câncer arranjado. Matei? O cara é muito malandro, ele não está nada com câncer, é pura jogada dos marqueteiros da petralha. Matei?" Comentários suaves, despretensiosos, vindo de  mentes puras, brilhantes. Parece até oriundas da mente do mais sábio dos cientistas políticos. E este outro: "Devagar, pessoal, o ‘universo’ está dando uma boa mão para nós terráqueos e limpando a terra dos esquerdistas. Senão, vejamos: o Kadaffi já morreu, o Fidel Castro está agonizando, o Hugo Chaves está agonizando, o Kim Jong-il da Coreia do Norte está agonizando, agora o Lula está com o câncer. Viva o câncer!" Cheio de tolerância, não é mesmo? Pensamento de quem acha que a corrupção possa deixar de existir pela simples troca de regime de governo.   

Que achar então desta pérola que já está rolando via correio eletrônico. Caiu na minha caixa com a introdução: "é muita sacanagem". E outra, "é muita maldade", definindo bem, sem no entanto deixar o vazio da dúvida. O comentário (citando como fonte a Folha de SP): "Mesmo que o Lula perca a voz e aprenda a linguagem dos sinais, continuará falando errado pois lhe falta um dedo". Deixa a impressão de um incisivo preconceito, certamente produzido por um falso espírito humorístico, cujo autor demostra todo seu preconceito e ironia, como deve ser com seus mais próximos. Faz lembrar àquela piadinha sem graça de um certo humorista se referindo à gravidez de uma certa cantora popular. Que lhe rendeu uma boa dor de cabeça, em vez do aplauso.

Há uma infinidade dessas merdices sobre o assunto nas várias redes sociais. Damos um tempo, senão este texto vai ficar enfadonho, sujeito a receber comentários da mesma estirpe dizendo que estou aqui a desfraldar alguma bandeira partidária, ou fazendo apolologia a algum sistema de governo ultrapassado. Como já aconteceu, quando vinculei outras matérias relacionadas com políticos e política. Certamente, mal interpretadas. Recomendo o artigo: o câncer de Lula me envergonhou, escrito pelo jornalista, Gilberto Dimenstein em sua coluna no Folha.com. Dimenstein, elaborou este artigo em resposta a outro, onde  recebeu "indignados" comentários ao escrever sobre a doença do Lula. A matéria rendeu-lhe críticas, em mais de 7745 comentários, até o momento. Muitos deles, bem parecidos com os mencionados acima.

O jornalista concluiu dizendo: "Minha suspeita é que a interatividade democrática da Internet é, de um lado, um avanço do jornalismo, e, de outro, uma porta direta para o esgoto do ressentimento e da ignorância".  

Por outro lado, há opiniões sensatas, refletidas, expostas com equilíbrio e conhecimento, em torno dessa bandalheira acerca do assunto. Outro jornalista, Kennedy Alencar, em entrevista a CBN afirmou que a Doença tende a mitificar mais ainda a figura de Lula, em uma opinião lúcida, corajosa, apartidária. Com a postura de quem não tem rabo preso, e sim educação e respeito humano. Uma dessas raras pessoas compromissadas com a verdade.

Nosso sistema público de saúde está muito longe do ideal, de forma que possa atender toda a demanda, sem que existam reclamações. É demorado, tem problemas de gestão, mas distante do caos que propagam os críticos sem causa definida. Muitos que se referiram ao SUS, se aproveitando da doença do Lula. Certamente nunca precisaram serem atendidos em um posto de saúde pública.

Muitas pessoas repudiaram as manifestações grosseiras e preconceituosas que visavam atingir Lula. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se manifestou desfavorável às críticas inoportunas. O "povão", ou o "Zé povinho", como alguns se referem ao grande contingente de brasileiros que necessitam do precário atendimento do SUS, não o criticaram. O momento não é conveniente para cobrar alguma coisa. Houve um grande número de pessoas que se organizaram, usando os mesmos meios para manifestar apoio, desejando vitória na "batalha" contra o câncer que o ex-presidente ora inicia.

Como resultado das pesquisas que fiz por aí sobre o acontecimento, cheguei a alguns depoimentos em relação a doença de Lula. Que trouxe a reboque o "precário" e ineficaz atendimento realizado no SUS. Opinião de gente que realmente conhece o sistema, por dele valer-se, e até certo ponto grato por tê-lo a disposição mesmo nas condições atuais. Portanto pode opinar com mais equilíbrio, sem revolta ou paixão exacerbada. 

Além do que foi mencionado acima, vale a pena ler o que escreveu a jornalista Elisângela Araújo, vinculado aqui pelo blogueiro e repórter de TV, Luiz Carlos Azenha. De igual importância é o texto que escreveu a Sra. Nina Crintzs, sobre o SUS. Tomei conhecimento através do Blog de Flavio Gomes, professor de Jornalismo na FAAP

É preciso abrir a mente e nos colocarmos acima das questões puramente políticas e das demandas exclusivas para a conquista de poder. Boa vontade para ajudar a resolver os grandes problemas que afetam a maioria, é uma raridade. Porém, só com a participação consciente de todos, despojada de posturas desagregadoras é que podemos trilhar o caminho das soluções. O pior câncer é aquele que corrói a alma, e nos torna desumanos.  





Com informações: DiretodaRedação.com

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5 comentários:

Carlos Henrique Leda disse...

Olá, bom dia

Realmente este fato gerou uma repercussão muito grande, li grande parte dos textos citados, e no entanto não concordo com eles.
Eu costumo muito ler, além das notícias, os comentários das pessoas, e de qualquer notícia que seja dada 90% são comentários de pessoas vazias, sem ocupação e cujo único fator de "prazer" na vida é atacar os outros, independente de quem seja, de quando, se está certo ou errado.
Notícias sobre o Rafinha Bastos, sobre o Kassab, sobre o Zezé di Camargo, enfim, qualquer pessoa sempre tem comentários propositadamente maldosos. Se as pessoas que escreveram tais artigos se inspiraram nisso estão somente perdendo o seu tempo, pois os que escrevem isso nada tem a acrescentar, não querem nada de sério da vida.
Eu tranquilamente ignoro estes comentários.

No entanto não se pode ignorar que há sim comentários sérios sobre o caso, de pessoas que em nenhum momento estão atacando o ex-presidente, mas sim questionando a sua falta de coerência, pois como pode alguém elogiar o sistema público de saúde e quando tem uma doença ir para o particular?

A "revolta" se deu em função desta incoerência. Se ele não tivesse falado da "maravilha" que deixou o SUS, ou então tivesse dito que apesar dos seus esforços o SUS ainda está muito precário, duvido que haveria este tanto de gente reclamando (exceto os que sempre reclamam).

Você iria em um restaurante onde o próprio dono não come pois a comida é ruim? E o que acharia se este dono fosse a mídia e falasse que a comida de lá é maravilhosa, coisa de primeiro mundo?

Este exemplo é o que gerou tanta revolta por parte dos mais sérios. Ninguém quer que ele se "lasque", mas no mínimo seja coerente. Ou assuma que está uma droga, e por isso prefere o particular ou já que fala que está ótimo que o use.

Concordo que o pior câncer é o que corrói a alma, e como disse há muitas pessoas com a alma corroída, e estas atacam a todas. É preciso ver os que não foram corroídos, e o motivo pelo que escreveram.


[]´s


Carlos Leda

Guara disse...

Carlos,

Vamos supor que o Governo decida destinar maior porcentagem do Orçamento geral da União para o Ministério da Saúde. Com finalidade de melhorar o sistema e assim poder atender um maior numero de pessoas em menos tempo. O aumento da verba teria a princípio, duas finalidades básicas: investir em aparelhamento tecnológico de ultima geração, que só a rede privada tem, e melhorar a remuneração dos agentes de saúde (médicos, infermeiros, pessoal adminstrativo, etc).
Recentemente observamos um protesto da classe médica contra os Planos de saúde. Por conseguinte, há um esvaziamento de credenciados, que do SUS não querem nem saber.
Vamos dizer que, para ganhar o valor de uma consulta normal, o médico teria que atender umas 10 pessoas pelo plano de saúde, ou umas 20 pelo SUS. Quem pode pagar a consulta, mais o valor mensal do plano de saúde é melhor atendido. Senão, vai engrossar a fila de espera do SUS. Aí está um dos grandes problemas do sistema.

Se o poder Executivo insistisse em alterar o percentual destinado a saúde, certamente não seria aprovado pelo congresso. Há grandes interesses políticos-econômicos que criam barreiras para que o sistema público não venha a ser equiparado, mesmo de longe, com o sistema privado. Não há interesse nenhum das grandes redes privadas de saúde trabalhar para o governo. Mesmo que este pudesse rembolsar o custo real de procedimentos de grande monta, para milhões de pessoas. Como o de um câncer de laringe, por exemplo.

Neste caso, volto a dizer ,a grita parece ter vindo de quem não depende do sistema. O resto, é tudo política.

Reafirmo. Se o ex-presidente optasse pelo atendimento do SUS, o chamariam de demagogo. A questão originária da manisfestação agressiva e inócua, reside no fato do escândalo de corrupção que veio a tona em seu governo, apelidado de mensalão. Tratado muitas vezes, de maneira sensacionalista pela grande mídia. Como nunca dantes na história política deste país (sem trocadilhos).
A corrupção sempre existiu por aqui, na mesma proporção. Ocorre que há muito tempo no Brasil, o poder não mudava de mãos. Antes, desde dos tempos da ditadura, escândalos de corrupção eram devidamente varridos para baixo do tapête. Muito pouca coisa vinha a público. E o problema da saúde pública, infelizmente continuará a espera de uma solução, mesmo que parcial. Porém, suas malezas serão melhor camufladas, para dar a impressão que o sistema melhorou.

Sem querer tomar partido, o governo representado por Lula, foi estigmatizado, como responsável por toda a corrupção pública, e também privada, que existe neste país. Antes, eram todos paladinos da moral e dos bons costumes.

O problema do SUS é incomensurável, e não poderá ser resolvido do dia pra noite. O que me leva a pensar, que qualquer que seja a facção política no poder, não poderá resolvê-la sem a participação de toda a sociedade. A corrupção não deixará de existir, como num passo de mágica. Apenas não virá, com a mesma constância, ao conhecimento público. Porém, os ataques de cunho político continuarão da mesma forma.

Muitos escandalos de corrupção vieram a tona, envolvendo vários partidos. Os desdobramentos foram parar no Supremo. Mas o que ficou na Midia, a cutucar o inconsciente das pessoas, foi o do governo Federal. Meio estranho, você não acha?

Só por analogia, há um projeto de autoria de Cristovam Buarque, que obriga os políticos, ou aqueles que exercem funções parlamentares, em qualquer nível de governo, a matricular seus filhos em escolas públicas. A finalidade seria aumentar a credibilidade do ensino público. A princípio teria certa lógica, mas no fundo, inconsequente. Será que passa? Do ponto de vista pessoal, a idéia, tanto neste caso, como ao que nos referimos no momento, me parece inconcebível. Ninguém pode restringir a vontade própria e o livre arbítrio de cada um, desde que dentro da lei. Seja ela, uma pessoa pública, que "em campanha diz o que quer, acredite quem quizer", ou um simples cidadão.

Te agradeço por trazer luz à questão.

Um abraço.

Guara. .

Tiozão das Batidas disse...

Olá Seu Guara !


Concordo plenamente com o Carlos Henrique Leda. Exceto por um vídeo que encontrei no canal do youtube de um xiita oportunista que declara abertamente desejar que o câncer leve a óbito o ex-presidente, todas as manifestações nas redes sociais são puramente protestos e críticas construtivas contra a demagogia da classe política brasileira e que neste ensejo se encarna na figura do Sr. Lula.

Um grande abraço.

Guara disse...

Tiozão,

Também vi este vídeo ao qual você se refere. Se for o mesmo, trata-se de um declarado inimigo de Lula, e não de um crítico equilibrado. Um jovem abastado e abestado que busca seus minutos de fama. Não conhece a realidade da política brasileira.Se conhecesse, sua críitica seria mais justa. São esses, os críticos rancorosos, inclusive do SUS que nunca utilizaram.

Grato pelo comentário

Guara.

Antônio Souza disse...

Convido os leitores deste blog a verificar no YOUTUBE o vídeo que postei “UM RECADO PARA O EX-PRESIDENTE LULA – ACRÓSTICO”.

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