sábado, 16 de agosto de 2014

Futebol feminino reage a críticas e denuncia falta de estrutura e amadorismo

Um grupo de mais de 100 jogadoras de futebol feminino assinaram um manifesto em que denunciam as precárias condições do esporte profissional entre as mulheres. O Grupo também criticou "as ligações esdrúxulas e comparações completamente equivocadas" entre a derrota da seleção sub-20 por 5 a 1 para a Alemanha, na Copa do Mundo juvenil, e a eliminação do time principal masculino, na última Copa do Mundo.
Algumas atletas, como a goleira Thais Picarte, a meia Rosane e a zagueira Andreia, divulgaram o texto em rede social nesta sexta-feira (15).

"Enquanto as nossas condições de trabalho forem semelhantes a das peladas que você joga aos finais de semana, respeite-nos e entenda que estamos fazemos milagre ao competir de igual para igual com as principais seleções do mundo", pontua o texto. As atletas afirmam que o futebol feminino "está em crise desde a data de seu nascimento" e que não há estrutura que permita dedicação exclusiva ao futebol: "a maioria de nós treina seis dias por semana, estuda, trabalha e ainda é dona de casa (…) Não temos mordomia nem salários astronômicos, no máximo temos acordos verbais e ajudas de custo durante três ou seis meses do ano, período das competições femininas no país".


Sobre a seleção sub-20, as jogadoras lembram que o Brasil não existem competições de base que possam contribuir para a formação as atletas. E dizem seguir sonhando com mais clubes e mais jogos, mais investimento, reconhecimento, e menos preconceito. 

O Bom Senso Futebol Clube apoiou o manifesto das jogadoras divulgando um texto intitulado "Terra devastada", considerando "inaceitável" a falta de atenção da CBF com o futebol feminino. No texto, o Bom Senso sugere a desvinculação da entidade para poder criar uma Confederação independente e receber os incentivos financeiros previstos na Lei Piva.

Leia o manifesto das jogadoras de futebol na íntegra:

"NUAS E CRUAS"

Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?

Em um país machista e preconceituoso que nunca acreditou, aceitou ou investiu de verdade no futebol feminino, é muito difícil para nós sonhar. Que o diga as meninas da Seleção sub-20, derrotadas pela Alemanha por 5 a 1 na última terça-feira, e expostas a uma chuva de criticas e comparações completamente equivocadas, sem nenhum conhecimento sobre a nossa modalidade ou sobre a realidade em que vivemos.

Ficamos chocadas com as manchetes sensacionalistas, as ligações esdrúxulas com a vexatória derrota da Seleção masculina na última Copa do Mundo, e com centenas de baboseiras escritas sobre as jovens atletas que, diga-se de passagem, nem competição sub-20 têm no Brasil para se formarem devidamente como “jogadoras de verdade”.

Esta nota, em comum acordo com mais de 100 atletas do futebol feminino, se faz mais do que necessária e vem em tom de desabafo, não para julgar técnica ou taticamente a partida em questão, nem para competir com o futebol masculino, mas para mostrar que somos de carne e osso, existimos, queremos ser ouvidas, não só nas derrotas e nos vexames, mas nas notícias e no dia-dia. Queremos a exposição dos nossos problemas, assim como dos nossos jogos e campeonatos. Queremos, inclusive, que nos ajudem a cobrar as pessoas e as entidades que têm o papel de zelar pelo nosso esporte e não estão nem aí para ele. Chega!

Não há e nunca houve estrutura que nos permitisse dedicação integral ao futebol. A maioria de nós treina 6 dias por semana, estuda, trabalha e ainda é dona de casa. Somos amadoras e sabemos que não será por meio da “profissão” que, por amor, escolhemos para viver que garantiremos o nosso futuro ou a nossa aposentadoria. Não temos mordomia nem salários astronômicos, no máximo temos acordos verbais e ajudas de custo durante 3 ou 6 meses do ano, período das competições femininas no país.

Vivemos de sonhos.

Aliás, se há alguma coisa em que somos realmente craques é em sonhar. Sonhamos com mais clubes e com mais jogos, sonhamos com o reconhecimento por parte da CBF de que se deve investir no futebol feminino, sonhamos que a nossa luta valerá a pena e que o nosso esforço será capaz de pavimentar a estrada pela qual as nossas crianças e jovens se sentirão bem ao praticarem o futebol feminino nas escolas e nos clubes, sem que recebam um olhar ressabiado ou a falta de incentivo da família.

Se um dia as meninas puderem escolher o futebol como profissão, a nossa dedicação terá valido a pena. Aí sim aceitaremos que nos falem de vergonha, de fracasso, de vexame e de atropelamento. Mas antes disso, enquanto as nossas condições de trabalho forem semelhantes a das peladas que você joga aos finais de semana, respeite-nos e entenda que estamos fazemos milagre ao competir de igual para igual com as principais seleções do mundo, que não param de investir e de se desenvolver.

Não queremos ser isca para nos usarem em meio a atual crise do futebol brasileiro como alguns aproveitadores fizeram com as nossas talentosas meninas da Seleção sub-20. Nós, que vivemos o dia a dia, sabemos que o futebol feminino do Brasil está em crise desde a data do seu nascimento, mas estamos dispostas a mudar essa realidade. Basta nos darem a oportunidade, investirem em nós e acreditarem no nosso talento e no nosso amor pelo esporte. Chega de sonhar, é hora de sentar a mesa com a CBF e fazer acontecer, doa a quem doer.


Fonte: EBC
Imagem: reprodução/Foto: Rafael Ribeiro/CBF

     
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