segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cuidado com os “estelionatários da comunicação”

Por Eunice Mendes*

Em tempos de delações e negações, proponho aqui uma reflexão incômoda, porém necessária, sobre o “outro lado” da comunicação. Refiro-me àquelas situações em que o poder da oratória é usado para o mal e, infelizmente, uma vez manipulado por “gogós” e informativos habilidosos, funciona com “padrão FIFA”.
Alguém pode dizer que essa é uma prerrogativa dos “doutos” da área jurídica, advogados pagos a peso de ouro para defender os envolvidos em operações que prometem “lavar a jato” todas as mazelas deste país.
Mas, como profissional da comunicação e alguém que leciona nessa área, posso atestar que a comunicação bem feita e com intenções nada edificantes faz parte não apenas das supremas cortes para as quais os olhos do mundo inteiro estão voltados neste momento, como também do nosso dia a dia, e temos de tomar muito cuidado para não sermos a próxima vítima.

Por trás de todo golpe há sempre uma boa comunicação, não aquela do excelente vocabulário e na qual a estrutura do discurso é baseada em argumentos consistentes, com harmonia entre introdução, desenvolvimento e conclusão, mas a oratória usada a serviço da manipulação. A comunicação é, sim, recheada de belas palavras, mas elas não passam de mentiras bem contadas, frases cuidadosamente articuladas para penetrar na mente e no coração dos incautos como se fosse música. Trata-se de uma composição perfeita que pode causar danos irreversíveis.
(...)
No mundo da comunicação, tal como em todas as searas da vida humana moderna, a aparência não corresponde à essência, por isso precisamos redobrar nossa atenção. E não apenas com o que está à nossa volta, mas, antes e sobretudo, em relação a nós mesmos. Todos somos igualmente responsáveis, pois, boa parte das vezes, nossas carências falam mais alto e pagamos qualquer preço por um pouco de afeto. Fazer 500 amigos em um só dia pelo Facebook é algo perfeitamente possível, mas como lembrou sabiamente o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos”.

A comunicação está indissociavelmente ligada ao sentido de palavras como “laços” e “comunidade”, mas precisamos aprender a formar esses vínculos. Refinar o autoconhecimento e a percepção que temos do outro, por exemplo, ajuda a perceber o que há por trás das palavras e dos gestos corporais, e, portanto, a repelir eventuais “estelionatários da comunicação”. Não se culpe por ter menos de uma centena de amigos, estar solteiro ou não consumir o melhor produto “de todos os tempos da última semana”. Se não comunicamos, não existimos, mas também faz parte do domínio da comunicação refletirmos sobre tudo aquilo que nem sempre é o que parece.

*Eunice Mendes é atriz, pedagoga e especialista em Comunicação Empresarial há mais de 30 anos e tem três livros publicados. www.eunicemendes.com.br

Via: BemParana
Imagem: reprodução/site oficial da autora


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