terça-feira, 27 de maio de 2014

O alerta vermelho sobre a bandeira de Cuba no vídeo oficial da Copa

Por Kiko Nogueira no DCM*

Quem levantou a bola foi o senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná. Mas o fato é que a história entrou desde já para a antologia do besteirol anticomunista/oportunismo mequetrefe/samba lelê tá doente.
A equipe de Dias pegou uma cena do vídeo oficial da Copa, “We Are One”, estrelado pelo rapper Pitbull, mais Jennifer Lopez e Claudia Leitte, e escreveu em sua página no Facebook:



“Cuba, uma das piores seleções nas eliminatórias das Américas do Norte e Central (apenas 1 ponto em seis jogos, eliminada em último em seu grupo), aparece com destaque no clipe oficial da Copa, que conta com a cantora brasileira Claudia Leite, além do rapper Pitbull e da americana Jennifer Lopez. A bandeira cubana aparece sendo agitada por torcedores em quatro momentos do clipe”.

Foi o suficiente um alarme soar na cabeça de pessoas que acreditam no saci pererê, na Cuca e nos seres que fazem círculos concêntricos em milharais. Dias está insinuando sabe-se lá o quê, mas o baixo nível da “denúncia” é emblemático do modo de tratar o eleitor como burro.
Além do clipe ter sido produzido pela Fifa e não pelo governo, há bandeiras de diversas outras nações que não participarão do Mundial. Estão ali Escócia, Nicarágua, Omã, Panamá, Peru, Bahamas, Dinamarca, Suécia, Trinidad e Tobago, África do Sul, Bolívia, Djibuti, Venezuela, Peru, República Dominicana, Israel, Somália.

O clipe foi gravado em Little Havana, Miami, reduto da comunidade cubana e onde Pitbull passou a adolescência (os pais dele são cubanos).É música de publicitário e tão irrelevante quanto “Waka, Waka”, do Mundial anterior. É pouco provável que Pitbull tenha exigido a presença da bandeira cubana. Pior é insinuar uma “propaganda subliminar” (isso foi dito a sério) orquestrada por Fifa, Sony e aquele monte de gente de sunga.

A assessoria de Álvaro Dias se deu ao trabalho de minutar o vídeo para avisar a população brasileira do número de vezes em que Cuba aparece. Teóricos da conspiração são pessoas que se sentem ameaçadas em seus bolsos, seu status ou ambos. Suas teses explicam o que está acontecendo com eles mesmos, ao atribuir culpa a um adversário que está deliberadamente com más intenções.

Dias defendeu, recentemente, que os black blocs são patrocinados pelo governo federal e comprou a história de que a Fifa patenteou o pagode. É uma espécie de TV Revolta em carne e osso. Perto dele, Pitbull é Lassie.



*Kiko Nogueira é Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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