quarta-feira, 21 de novembro de 2018

'O Teatro da Censura'. Por Ben-Hur Demeneck

Por Ben-Hur Demeneck*, em sua página no Facebook - "Na edição de terça-feira (20.nov), o Diário dos Campos publicou o artigo "Magnífico [sic] Reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa" criticando discurso feito em cerimônia do Festival de Teatro. O pequeno manifesto indica um desconhecimento tanto sobre o que é teatro quanto do que é universidade, ou em outras palavras, do que seja liberdade liberdade de expressão.

Além de apresentar uma nostalgia cívica que encontra páreo no imaginário daqueles anos de censura, tão familiares ao teatro brasileiro. Suas definições de "Reaçolândia" acabaram de ser atualizadas. "O 46º Fenata acontece em um momento em que se tenta colocar uma mordaça na arte, no pensamento e na liberdade de cátedra (...) o Festival continua a ser uma bandeira democrática hasteada em um céu turvo". Esse trecho, retirado do discurso do reitor Miguel Sanches Neto, foi encarado com "apreensão e lamentado por dezenas de signatários, parte significativa ligada a associações empresarias e a grupos rurais de Ponta Grossa. Ótima ocasião para os cientistas sociais discutirem o "liberalismo à brasileira".

Entre os parágrafos 2 e 5, os signatários do "manifesto" descrevem qual deve ser a postura de alunos, funcionários, professores e do reitor. Nas entrelinhas, ressoa a discussão que grassa pelo país - o da escola sem liberdade, hoje conhecida como "Escola Sem Partido". Rápido parêntese: quem em sã consciência defende uma "Escola Com Partido"? A questão é: a quem interessa institucionalizar uma censura em bancos escolares? Quem vai definir o que é e não é partidário? Por que interferir na na autonomia dos professores em vez de divisar o pluralismo e o pensamento crítico em ambientes de formação intelectual? Mas voltemos ao palco do Fenata.

O Festival Nacional de Teatro (Fenata) se realiza há 45 anos ininterruptamente. Falar de liberdade do festival é garantir sua razão de ser - teatro é provocação. Aproveitamos para refrescar a memória a partir de depoimentos reunidos pelas jornalistas Letícia Queiroz e Mariele Zanin para para o documentário "Fenata": uma biografia" (disponível no YouTube, 34 min.). Os entrevistados recordam da censura prévia feita em espetáculos apresentados em Ponta Grossa:

(a) O técnico de iluminação Antônio Tomal, que começou no Fenata em 1978, conta que na montagem de "Eles não usam Black-tie" (Gianfrancesco Guarnieri), o Grupo Universitário precisou apresentar a peça para um censor do Exército, que a assistiu nas primeiras fileiras do teatro com roteiro à mão, cortando cenas.

(b) Fernando Durante, que foi ator no Fenata nos anos 1970, recorda que o texto de "A morte do imortal", do Lauro César Muniz, veio com tantos cortes da censura que foi impossível montar. Detalhe: o texto original serviria para uma adaptação televisiva.

(c) Daniel Louis Frances conta que, ainda como espectador, era comum chegar ao Auditório Central da UEPG e se deparar com espetáculos cancelados por conta da Censura. Depois, como diretor de peças apresentadas no Festival, ele precisou protocolar roteiros de peças na Polícia Federal, para autorizar ou não sua montagem. Carimbavam-se trechos censurados.

O ataque às liberdades civis no Brasil não está apenas no plano das artes, mas também no jornalismo. Inclusive sob aparências da mais absoluta legalidade. Há anos a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) denuncia uma escalda da censura judicial. Apenas em 2018, houve no Brasil 504 ações de políticos na Justiça lutando contra a divulgação de informações. No Paraná, houve 30 delas embargando o livre exercício jornalístico. Recentemente, o juiz da 4ª Vara Criminal, Gustavo Gomes Kalil, impôs multa de R$ 1 milhão à TV Globo se a emissora descumprir a ordem judicial e publicar partes do inquérito sobre as mortes da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, executados em março. 

O Fenata foi açodado pela censura nos anos 1970 e início dos 1980. Discursar em defesa das liberdades numa cerimônia do Festiva é o mínimo que se espera de uma autoridade que entenda de universidade, de cultura e de vida intelectual. Não se trata do reitor Miguel Sanches Neto nem de quem quer que seja, mas daqueles que optam por traduzir a liberdade na dimensão simbólica e cidadã da cultura.

Para finalizar, é importante frisar que Ponta Grossa não se iguala a seu provincianismo, circunscrito a que o traz por nandeira. Ponta Grossa - tal qual o Brasil - não tem dono porque é maior que qualquer rótulo e ideologia. PG vive por sua diversidade em mensagens, usos, costumes e modos de vida. O ponta-grossense está longe de ser obediente por ter cabeça pensante, ser dono do próprio destino e da sua liberdade. O ponta-grossense não gosta de censores nem de tiranos, seja qual poder eles tenham. Ele não obedece nem quer mandar. Quanto aos fiscais dos costumes, eles não estão com nada. Apenas com a validade vencida."

*Ben-Hur Demeneck é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados da USP).  

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Imagem: reprodução/passapalavra.info/Foto: Moyo Taxiguerilla

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