segunda-feira, 25 de maio de 2020

Sleeping Giants Brasil: perfil contra fake news incomoda bolsonaristas dentro e fora do Governo

Não levou nem uma semana para a versão brasileira do Sleeping Giants, movimento que mostra como as empresas financiam indiretamente, por meio de anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas, causar um terremoto nas redes sociais, e alertá-las sobre propagandas em canais pouco confiáveis.
A ação do perfil criado no Twitter, também provocou reações até mesmo no alto escalão do Governo Bolsonaro. Incomodados com o movimento, que já convenceu mais de 30 marcas e empresas a retirarem publicidade do sistema de anúncios automáticos do Google, vinculadas no portal Jornal da Cidade Online, notório propagador de desinformação, apoiadores do presidente reagiram no sentido de impedir que outras páginas ultraconservadoras sejam afetadas pela debandada de anunciantes.

O primeiro a reagir publicamente foi o filho do presidente, vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), que reclamou da decisão do Banco do Brasil de vetar anúncios no Jornal da Cidade Online. Diante disso, o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten, afirmou que contornaria a situação a favor dos "veículos independentes". 

Após os protestos do filho do presidente, o setor de marketing do BB, cujo diretor é Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, retirou a restrição de publicidade no referido site. "O Sleeping Giants precisa urgentemente deixar o viés ideológico de lado na hora de fazer suas supostas denúncias", publicou Wajngarten em sua conta no Twitter.

Na quinta-feira (21), a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão solicitou investigação sobre gastos da pasta chefiada por Wajngarten, com campanhas publicitárias, aponta a escolha de veículos de propaganda por parte da Comunicação da Presidência, conforme afinidades ideológicas. O órgão vinculado ao MPF, acusou a Secom de direcionar verbas para sites alinhados a Bolsonaro e censurar mídias críticas ao governo Bolsonaro. 

Os procuradores do MFP ainda solicitam análise de uma ação de improbidade administrativa contra Fabio Wajngarten, acusado de favorecer emissoras de TV que possuem contratos com sua agência de marketing, direcionando recursos da Secom para essas emissoras. O deputado Felipe Rigoni (PSB-ES) e a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), entraram com uma representação na Procuradoria-Geral da República, incluindo o pedido para que o secretário seja investigado por descumprir o princípio da impessoalidade ao prometer intervir em decisão do Bando do Brasil. 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (sem partido) foi outra figura influente do bolsonarismo a manifestar queixa contra a articulação do Sleeping Giants Brasil, expressando sua preocupação através do seu canal no YouTube, com o que chamou de "A mais nova estratégia da esquerda para destruir blogs de cunho conservador". E chamou o movimento de "milícia virtual" e "uma patrulha ideológica pré-ordenada", clamando ao empresariado que "não se curve ao politicamente correto". Eduardo Bolsonaro aproveitou para divulgar dois perfis no Twitter com o objetivo de contrapor o Sleeping Giants Brasil. No entanto, um deles já saiu do ar por descumprir as regras da plataforma.

Com o objetivo reverter a campanha de atingir a principal fonte de renda dos sites de fake news e extrema direita, os apoiadores de Bolsonaro pregam boicote à empresas que vetarem seus anúncios no Jornal da Cidade Online. Por exemplo, a hastag #NaoCompreDell apareceu entre os temas mais comentados no Twitter, após a empresa retirar propaganda do site, que se defendeu publicando um editorial onde se diz vítima de censura e que os anunciantes que bloquearam publicidade no site estariam perdendo clientes "de maneira avassaladora", com base em publicações de usuários no Twitter, no entanto, sem comprovação estatística.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), ferrenha apoiadora do governo Bolsonaro, também criticou a Dell por ceder à "pressão de um perfil anônimo de esquerda", e classificou  atitude da empresa como "gesto de desprezo pela maioria conservadora da população brasileira". No mês passado, deputados do PT assinaram uma representação contra Zambelli por denunciação caluniosa, após ela afirmar em entrevista que caixões estavam sendo enterrados vazios no Ceará, mas em prova sem apresentar provas. Pela atitude da deputada, o Governo do Estado divulgou nota de repúdio e informou que tomaria as "medidas judiciais cabíveis".

Repercussão impressiona criadores do movimento

Enquanto desagrada [incomoda e irrita] o governo Bolsonaro e seus apoiadores, o Sleeping Giants Brasil é celebrado por personalidades como a atriz Patrícia Pillar, o apresentador Luciano Huck e o youtuber Felipe Neto, que mostraram simpatia ao movimento. Os fundadores da iniciativa nos Estados Unidos, [movimento que "quebrou" as pernas do site de Steve Bannon, "criado para chamar a atenção de empresas e consumidores sobre anúncios em sites extremistas, e também para atacar adversários políticos de Trump com golpes baixíssimos" (...)], festejam o sucesso meteórico da filial brasileira.

Em cindo dias, o Sleeping Giants Brasil superou a marca de 200.000 seguidores e já está próxima de alcançar os números do original em inglês. "O perfil gerou um movimento massivo em todo o Brasil, sendo comentados por todos, desde o maior youtuber do país até os filhos de seu presidente, teve grandes anunciantes que deixaram de apoiar um site que espalha desinformação e, em breve, será muito maior do que a nossa humilde e pequena conta, publicou a matriz norte-americana, que foi fundada em 2016 e tem 270.000 seguidores. 

Além de empresas, pessoas físicas e autônomos também tem sido alertadas pelo perfil sobre anúncios de mídia programática exibidos em páginas de extrema direita e notícias falsas através do Google. Com por exemplo o economista e empresário Eduardo Moreira, que revisou seus anúncios após a indicação de que seu banner aprecia no Jornal da Cidade Online. "Alertado por seguidores por seguidores sobre o anúncio da minhas aulas gratuitas de finanças sendo veiculadas num site de fake news, pedi imediatamente que a equipe que coordena as propagandas agisse. Bloqueamos este e vários outros sites", disse Moreira.

Dentre as companhias que atenderam às solicitações do Sleeping Giants, estão as multinacionais McDonald's e Philips. Pelas regras de compliance, empresas que negociam ações na Bolsa de Valores adotam procedimentos para bondar a reputação da marca, algo levado em consideração pelos precursores do movimento ao adotar a abordagem de alertá-las sobre a associação, via publicidade digital, com páginas disseminadoras de fake news e desinformação. Esses alertas já renderam resultados, a exemplo do Nubank, que, ao ser questionado sobre um anúncio, constatou que a publicidade não fazia parte de suas campanhas. Na verdade se tratava de um golpe.

O EL PAÍS identificou anúncios de empresas como Mastercard e Drogaria São Paulo - supsensos após contatos da reportagem - em canais de YouTube vinculados à extrema direita e com histórico de publicação de informações falsa. De acordo com o administrador do Sleeping Giants Brasil, que mantém anonimato, há mais de 100 páginas e canais monitorados por causa de fake news que se sustentam das receitas com mídia programática. No entanto, a estratégia do perfil é focar na exposição massiva de um veículo por vez, até que seja desmonetizado por completo.

Adepto da agenda bolsonarista e reiteradamente denunciado por agência de checagem pela propagação de notícias falsas, o Jornal da Cidade Online esvaziou, na tentativa de conter a sangria, seus espaços reservados a anúncios direcionados pelo Google e ainda perdeu o banner fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso d Sul (TCE-MS), que determinou a retirada da publicidade em meio ao turbilhão desencadeado pela chegada do Sleeping Giants ao país.

Reportagem de Breiller Pires, para o El País
Imagem: reprodução/Foto: Ueslei Marcelino

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